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Revista Bang!
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A Porta no Tecto – Conto de André Barbosa

Ficção Nacional na Revista Bang!

A chamada veio como qualquer outra que chegue a uma sexta-feira à noite – dura, seca, rude e sem permissão. É a dicotomia poética d’O Trabalho. Se, por um lado, podes esmagar as costelas de um drogadito porque estás a ter um dia mau, por outro, ou aproveitas as pequenas pausas ou não levas nada.

Rebocho ainda tinha a roupa vestida quando o toque se fez ressoar nos confins do crânio. Adormecido no sofá; tinha sido um dia longo. O whisky tinha cumprido bem o seu dever de tiro-e-queda. Limpou a cara num movimento fluído e automatizado, fungou o vazio que preenchia o nariz, pigarreou e pressionou a tecla verde.

─ ‘tou?

Talvez tenham sido as palavras usadas por Oliveira. Ou talvez o seu instinto estivesse a ficar cada vez mais afinado. Mas Rebocho soube que este não ia ser dos de dia de passeio.

─ É melhor que acordes e venhas bem fresco, Rebocho. Não vais acreditar nesta merda.

O Oliveira tinha tendência para o drama, isso era mais que sabido; herdara-o do avô, um actor de segunda que fazia as noites de teatro numa boîtezita qualquer. Mas o tom com que, entre risos, tinha entregado o caso deixava uma marginal inteira para dar azo à imaginação. Não era gozo… era apreensão. Nervosismo. Rebocho não perdeu tempo: pastilha de mentol, gravata arranjada, cara lavada com água fria, sumo de laranja, sobretudo e porta fora.

A cidade exalava morbidez. Estava viva, um organismo. A par das ruas de si escuras e pesadas, um nevoeiro já demasiado familiar assumia-se como corredor de fundo: impenetrável, impessoal, omnipresente. Inverno, por isso, toda gente em casa. O único som que se ouvia era o de um incomportável silêncio, raspando como unhas em ardósia, num brilhante e mnemónico tango protagonizado por intermitentes acufenos e respectivas ausências.

Entrou no carro e seguiu a morada que Oliveira lhe dera. «Rua do Asilo.» Tinha ouvido falar. E ultimamente até de mais. Era a rua onde ficava aquele talho esquisito, e o sítio não lhe agradava, por definição.

Chegou à casa num instante. Estandarte. Espalhafato. Não era habitual… Até um carro de perícias e um…

─ Porra, que cara…? Um empreiteiro? ─ A carrinha era denunciante.

Trocados os devidos cumprimentos e continências, avançou para o pátio. O portão ferrugento e descascado estava parco na tinta branca original, e a sua presença constituía apenas isso mesmo, estes dias. A degradação da residência remeteu-o automaticamente para as sendas obscuras favoritas do seu malfadado subconsciente. Abanou a cabeça num movimento subtil para os sacudir. Entrou na casa; no hall de entrada estava Oliveira a conversar com quem parecia ser o comissário Pereira, e assim que o viu indicou-lhe com o olhar o local da ocorrência. Rebocho dirigiu-se à sala. E o que viu arrancou-lhe uma gargalhada interna, abafada pelo espanto justificado.

A cena do «crime» consistia num pedaço de papel triangular que pendia do tecto e hospedava uma mancha de líquido avermelhado, fresco, com gotas que pingavam o chão em intervalos regulares, definidos pela matemática da Natureza. O bizarro da situação era a forma como o papel se encontrava no tecto: não estava colado ou preso por fita-cola ou um alfinete. Estava embutido no tecto. E o líquido que escorria da ponta da forma escalena era sangue – fresco, vivo, recente.

─ E esta, hã? ─ Oliveira aproximou-se sorrateiramente.

─ Qual é o truque? ─ Rebocho nunca se entregava ao «é-estranho» facilmente. Era um céptico inato.

─ Sem truques. Pelo menos por agora. A casa pertence a um tal Alexandre Nicolau, puto com 26 ou 27 anos (os amigos não estão em condições para especificar), ficou de ir ter com os amigos, mas não apareceu; vieram ver o que se passava, porque aparentemente ele não podia faltar ao combinado, não atendia o telemóvel nem o telefone de casa. ─ Oliveira fazia as vezes de um robô, ocasionalmente. Tinha o dom de memorizar tudo à primeira. Ditava a informação rápida e cientificamente sem hesitação ou vacilo. ─ Quando os amigos cá chegaram, a porta estava trancada como seria de esperar, mas um deles tinha sido confiado a ficar com uma chave suplente. Entraram, nenhum sinal do rapaz. ─ Oliveira fez uma pausa, como que a conceder autorização aos genes do avô para que entrassem em cena. ─ Eis a parte estranha: quando entraram na sala, não havia nada nem ninguém. A seguir a uma pancada forte – que já agora, os três descreveram – o chão deu sinal de líquido a chapinhar. Viram a folha. Chamaram-nos.

Rebocho ainda não estava satisfeito.

─ Drogas?

─ Limpos.

─ Quezílias?

─ Amigos de infância, anormalmente chegados.

─ Uma partida parva?

Oliveira esboçou um sorriso, como se tivesse acabado de encurralar a sua vítima num beco para o golpe final e fatal. O coup de grâce.

─ Mijaram as calças. Um deles desmaiou. Vê por ti mesmo, estão lá fora.

Rebocho lançou um último olhar ao triângulo. Ainda a escorrer. Virou-lhe costas e saiu da casa novamente para o exterior, novamente para o espalhafato.

─ Estão sentados na ambulância ─ informou Oliveira.

O inspector aproximou-se da carrinha amarelo-fluorescente. A imagem foi clara: um dos rapazes estava em completo estado de choque, o olhar colado ao chão, encarando o vazio, cobertor por cima dos ombros; outro tremia como se pairassem temperaturas negativas. As calças apresentavam uma coloração mais escura à volta da zona das virilhas. O último encarava Rebocho fixamente com uma nesga de possibilidade no olhar. Avançou.

─ Parece ter sido um grande susto. ─ Rebocho nunca sabia o que dizer, mas gostava de não entrar a matar.

─ Pode crer… Ainda não consegui processar tudo. ─ A voz tentava sair firme, embora fosse assaltada por ocasionais tremuras. ─ Inspector Rebocho?

─ O próprio.

─ Disseram-me que o senhor estaria encarregue. Presumo que esteja aqui para perguntar o que aconteceu.

Rebocho assentiu e não perdeu tempo. Gostava deste tipo de pessoas, práticas e com sentido de responsabilidade. O rapaz sabia ao que tinha assistido, e cabia-lhe somente relatar os factos. Nada de tentativas de resolver ou de tentar saber mais, isso cabia tudo à polícia. Fez as perguntas de rotina e rapidamente chegou às do caso. Tentou não dar muita atenção à bizarria da situação.

─ Muito bem. Última questão: alguma coisa que andasse a incomodar o Alexandre nos últimos tempos, algum acontecimento que pudesse fazer com que ele quisesse fugir e não avisar ninguém?

O rapaz encarou-o com ar sério.

─ Não. O Alexandre era um gajo organizado e resoluto. Se havia alguma coisa a incomodá-lo, resolvia logo. E a vida corria-lhe bem ultimamente, ele confessou-me há umas semanas, com os copos, que desde há muito tempo que não se sentia assim, como se tudo estivesse no sítio certo, perfeitamente encaixado… ─ Os seus olhos cintilaram. Respirou fundo antes de prosseguir. ─ Ele não fugiu. Alguma coisa aconteceu.

Toda a equipa forense evitou perder tempo, por quererem sair dali – uns por não gostarem de coisas estranhas, outros por ser fim-de-semana, alguns porque era só mais um trabalho. Documentaram, fotografaram, analisaram e racharam o tecto na área que circundava o papel, dando aquela que seria a margem necessária para quebrar a pedra que o envolvia sem danificar a folha. O resto do corpo que constituía o papel foi retirado, revelando uma mensagem manuscrita que ocupava ambas as páginas, e uma segunda folha que terminava com uma assinatura.

Luvas postas, os objectos papíricos foram passados a Rebocho, que foi o primeiro a ler.

Agora, eis a parte em que a história segue rumos diferentes, mesmo que contada por quem estava na sala de estar. Alguns dizem que Rebocho tremeu das mãos o tempo todo, alguns dizem que ele nem sequer leu a carta até ao fim. Uns dizem que suava da testa e que o olhar percorria freneticamente as linhas, espelhando o medo que um homem adulto não devia sentir, muito menos mostrar; outros garantem que a sua expressão foi impassível durante os vinte e um minutos em que Rebocho esteve a ler a carta para si.

Acerca de um particular aspecto, no entanto, todos parecem concordar – assim que pousou as duas folhas, o inspector-chefe levantou-se, ergueu a cabeça ao tecto e fechou os olhos. No instante seguinte, abriu-os com um arfar desesperado e terror no olhar; e após o segundo fechar de olhos Rebocho exibiu uma cara do mais primitivo medo, começando a gritar palavrões descontroladamente enquanto saía da casa a correr.

Independentemente de todas as versões, o conteúdo da carta permanece inalterado. Eis a sua transcrição:

 

«Não me vou alongar no desnecessário, não por falta de tempo, mas porque sinto o organismo ser desumanamente dominado pela fraqueza mental e exaustão extrema. Advirto, no entanto, a quem quer que esteja na posse deste documento e antes de dar início ao meu relato, para a necessidade da manutenção de abertura de espírito durante a sua leitura, e para que o leitor a leve até ao fim, antes de quaisquer condenações ou juízos de sanidade.

Suponho que não haja aquilo a que se possa chamar um começo certo, portanto, o mais lógico será dar início pela minha parte da história.

Cheguei a casa na sexta-feira, dia 21, do trabalho, exausto. Dia longo. Tinha combinado encontrar-me com a rapaziada do costume à noite por ocasião da entrega da tese do João e consequente emigração. Como não podia faltar e tinha que estar fresco, decidi tirar uma pequena sesta no sofá antes de jantar. Não me recordo sequer de deitar no sofá antes de uns bizarros sonhos subaquáticos me trouxerem à realidade pela brutalidade e violência sonora. Acordei com um ligeiro sobressalto e a promessa de eco de um grito distante. Ainda deitado, afastei as imagens guturais dos sonhos com um esfregar de olhos lento e demorado. E assim que o fiz, as linhas brancas de um rectângulo formaram-se na escuridão pontilhada dos restos químicos retinais. Abri os olhos, e tudo o que vi foi o meu tecto. Achei estranho e voltei a fechá-los para confirmar que seria imaginação, e para meu espanto lá estavam elas – quatro, brancas e definindo algo. Abri os olhos novamente. Nada. Repeti o processo até me convencer de que não se tratava de nenhum fenómeno óptico-fisiológico por sobre-estimulação dos fotorreceptores. A forma continuava lá, rectangular, e somente quando baixava as pálpebras.

Levantei-me do sofá e prestei uma observação mais cuidada às marcas. Assim que me aproximei do tecto, a diferença de perspectiva revelou uma quinta forma que imediatamente se registou na minha base cognitiva como sendo uma espécie de maçaneta – pela forma e conveniente localização no rectângulo. Por isso, por A+B, o rectângulo transformara-se numa porta.

Algo me fazia sentir estranhamente compelido a saber mais e uma curiosidade incontrolável levava-me a querer saber o que estaria por detrás da porta, por isso decidi-me a aprofundar o assunto e fui buscar o escadote. Fui fechando os olhos e “olhando” o tecto, à medida que procurava a posição certa para o escadote. Pousei-o e subi. Embora o pensamento tivesse soado completamente absurdo e ilógico e a situação de maneira alguma correspondesse aos respectivos contrários, enfiei uma lanterna no bolso.

Perante o pedaço de tecto sob o qual estaria a porta, respirei fundo e fechei os olhos. A visão foi de outro Mundo. Estendi a mão para a maçaneta e, ao primeiro contacto com a pele, a porta abriu-se. Nem rápida nem lentamente – à velocidade certa. Estiquei os braços para o interior e agarrei os lados da parede. Ao entrar, o processo físico mais incrível e inortodoxo tomou lugar: a realidade sofreu um deslocamento de 90º, assim que a primeira perna ultrapassou a porta, e o que seria um alçapão rapidamente se converteu numa porta. Estava em pé e tudo continuava escuro, pois durante todo este processo assumi que não poderia abrir os olhos e assim permaneci.

Comecei a minha marcha investigativa, apalpando o que podia à minha volta para me contextualizar espacialmente. Senti, sobretudo, estruturas frias, metálicas, e aos poucos e poucos formou-se uma imagem mental do que me poderia rodear. Pareciam ser armários, com extensas prateleiras cobertas de utensílios diversos e frascos. Não seguiam uma ordem específica e pareciam estar dispostos de forma aleatória, mas não havia maneira de ter a certeza. Explorei o espaço com o tacto durante o que me pareceu ser um ror de tempo, e as minhas deambulações logo se metamorfosearam numa expedição. Tenho agora a perfeita noção de que esse foi o meu primeiro erro fatal – ter perdido a porta de vista. Devo ter atravessado divisões distintas, porque a certa altura as quatro linhas haviam desaparecido do meu campo “visual” e tudo o que sabia rodear-me era o que sentia. Não tardou muito a que o pânico de não ter um ponto de referência se instalasse dentro de mim, e começasse a acelerar o passo sem qualquer precaução. O segundo erro fatal. Inevitavelmente, choquei contra algo. Pelo estandarte e forma, parecia ser uma espécie de carrinho de utensílios, mas nunca poderei ter a certeza. Irrelevante, porque o que importa é a reacção que o estrondo desencadeou. Não foi imediata – talvez uns dez segundos depois. Em primeiro lugar, o barulho metálico ecoou pelo sítio, cedendo uma imagem sonora pouco precisa, mas coerente o suficiente para dar a entender que me encontrava num espaço de dimensões razoáveis. O pior, no entanto, veio dez segundos depois.

Um grito estridente eriçou-me os pêlos da nuca e gelou-me todos os poros do corpo. Arrepiei-me como nunca antes. Seria necessário um poeta para descrever a monstruosidade do grito, coisa que não sou. O máximo a que o meu pobre vocabulário e condição me permite fazer alusão é à guturalidade visceral do som. Basal, primitivo. Antigo. Não deste Mundo. Seguiram-se imediatas e cúmplices respostas ao primeiro rasganço auditivo, numa cacofonia infernalmente tribal e animalesca. Primeiro, às dezenas; depois, às centenas; por último, aos milhares. Foi horripilante. Não sabia o que fazer – a orquestra monstruosa parecia estar longe do local onde me encontrava, mas como saber? Poderia ser tudo um efeito refractário do som, poderiam estar mesmo ao meu lado! E foi sob o intenso assalto deste último pensamento que decidi que ficar parado não seria solução. Mas para onde ir? Os gritos estavam cada vez mais perto, aproximavam-se. Estava a ficar sem opções. Por isso fiz a única coisa que estava ao meu alcance, mesmo desconhecendo as imprevisíveis consequências.

Abri os olhos.

Ao início, fiquei cego. Mas assim que os meus olhos se habituaram à luz, fiquei absolutamente pasmado. Estava numa divisão claustrofobicamente branca, quatro paredes, cinco metros cada. Um cubículo, poderemos assim defini-la. Ao centro, e como único adereço visível e material, uma cadeira. Quatro pernas, um assento, um encosto. Nada mais, nada menos. A luz, ainda agora me interrogo de onde virá: impossível saber. Reside permanentemente na sala, uma presença imutável. Um inquilino eterno que se recusa a sair.

Estava a tremer e decidi sentar-me na cadeira para me acalmar. Assim que senti o ritmo cardíaco voltar ao normal, olhei em volta e racionalizei na tentativa de encontrar uma saída – nada. Nenhuma porta ou janela. Rapidamente cheguei à terrível conclusão de que a única saída possível residia no escuro do meu olhar.

Poupar-vos-ei aos momentos de loucura e autocomiseração que se seguiram. Durante muito tempo gritei, esperneei e chorei. Até implorei, sabe-se lá a quem. Nada resultava. E o tempo passava. Segundos, minutos, horas, tudo continuava em moção no meu antigo relógio de pulso, e eu não me atrevia a fechar os olhos. Durante o que me pareceram ser horas, mantive-me entretido com jogos mentais e cantarolando as minhas músicas favoritas – o medo e o terror que sentia ao recordar os gritos eram mais que suficientes para me manter bem desperto e acordado. Ao fim de algum tempo, a exaustão, fome e sede começaram a manifestar-se. Tinha que encontrar algo para beber, pelo menos até achar uma forma de encontrar a porta. Por isso, fechei os olhos novamente, e assim que o fiz os gritos voltaram ininterruptos, dando a ligeira impressão de que nunca tinham parado, desde que levantara as pálpebras. Não perdi tempo e comecei a correr sem direcção definida, e sempre com os braços estendidos à frente, para não chocar com nada. Sentia o chinfrim cada segundo mais próximo e isso não me deixava espaço para pensar. O medo tomou conta de mim… e abri os olhos.

Estava de volta ao cubículo. Tudo exactamente como tinha deixado. Este foi um facto que não passou despercebido. Através de uma série de estratégias experimentais compostas por intervalos exploratórios de dez segundos, fui capaz de perceber a mecânica do Mundo paralelo em que me encontrava. Era bastante simples, na verdade: sempre que fechava os olhos, a minha companhia era a sinfonia dos berros e o horror; assim que os abria, estava de volta ao cubículo, à segurança. O ponto comum entre as duas era o decorrer do tempo. Quando abria ou fechava os olhos, a realidade recomeçava no ponto em que o havia feito anteriormente. Como um jogo em pausa.

Agora nem tudo era fácil, e estas pequenas explorações tiveram um custo. As criaturas conseguiram aproximar-se o suficiente para que uma delas se encostasse, acidentalmente ou não, a mim – pêlo espesso e seboso, e uma “pele” de origem artrópode, fria e escamosa. Assim que o senti, gritei e abri os olhos, com o peito quase a rebentar. Após calma reflexão, pensei no que faria de seguida, e voltei a fechar os olhos. Pontapeei a aberração e fugi na direcção oposta, conseguindo uma considerável distância dos guinchos de raiva e agonia que abandonara, e ganhando agora novo alento para a procura de bebida e, se possível, comida. A busca revelou-se infrutífera, pois tudo aquilo a que deitava mão invariavelmente desaparecia assim que abria os olhos. A paranóia e o pânico começaram a tomar conta de mim, quais fungos oportunistas sobre o corpo em decomposição. Era cada vez mais difícil manter-me acordado e a barriga contraía-se em espasmos de dor com espaçamento cada vez menor. Comecei a sentir-me leve e desfasado da realidade.

Decidi que ficaria acordado até encontrar uma solução válida e exequível. Sentia as areias do tempo escoarem inconsequentemente, e por essa altura caminhava sem rumo, de trás para a frente, entre as fezes e a urina que preenchiam o cubículo, para que me conseguisse manter acordado. Comecei a falar sozinho, tal e qual os loucos naqueles filmes de manicómios, e os mais mirabolantes pensamentos invadiam a minha mente. Atingi o meu limite e foi aí que entrou o meu instinto animal. Tudo ou nada. “Fugir ou Lutar.” Decidi tomar uma atitude. Fechei os olhos e continuei a procurar a porta, sem sucesso, tacteando tudo à minha volta no processo. Sentia as criaturas a deslocarem-se a velocidades estonteantes, movidas pela raiva e frustração de não me encontrarem. Estavam cada vez mais perto. A minha busca continuou, até que apalpei uma forma familiar: um lápis! E mesmo ao seu lado, uma data de folhas de papel!

Abri os olhos. Casa.

O que fazer? Poderia utilizá-los no escuro, mas não teria o tempo ou a habilidade. Trazê-los para o cubículo estava fora de questão, despareceriam assim que os agarrasse e abrisse os olhos.

Por uma inacreditável coincidência, no decorrer da minha busca por uma solução, levei as mãos ao bolso, num gesto automático à procura de algo que me pudesse ajudar. Senti a lanterna e retirei-a imediatamente. Com fome, a mente parece ficar mais esperta, e foi talvez graças a esse transe que um desses mirabolantes pensamentos se metamorfoseou numa epifania. Nada teria a perder por experimentar.

Agarrei a lanterna com força, verifiquei que funcionava e fechei os olhos. Assim que voltei a sentir o lápis e as folhas, apontei a lanterna na direcção onde assumi que estivessem. Et voilá: resultou. O foco luminoso surgiu no meu “campo de visão” inexistente como uma pequena televisão, revelando o lápis e os papéis num espaço branco. A imagem era deslumbrante e prendeu-me boquiaberto. Terceiro erro fatal. O tempo que gastei a apreciar o fenómeno foi o suficiente para que as criaturas alcançassem a divisão onde me encontrava. Sentia-as perto de mais, e num movimento reflexo apontei a lanterna na direcção do som. O que vi foi horrendo e irreproduzível por palavras. Tenho a imagem gravada a ferro quente no meu cérebro e tremo só de a invocar. Rapidamente, apontei ao lápis e papéis, abri os olhos em acto contínuo, e lá estavam eles, no cubículo, circundados pelo foco da lanterna, exactamente na mesma posição onde os iluminara.

Demorei um tempo a decidir o que faria com objectos tão banais. De nada me serviriam para sair de qualquer um dos locais. Não foi até tomar sentido de algo que me apercebi da gravidade da situação e que o par ganhou um propósito. Sentar-me-ia na cadeira e escreveria a minha história, servindo as coxas de mesa improvisada, na esperança de conseguir encontrar a porta e fazer chegar isto a alguém. A explicação para o meu desaparecimento ficaria dada e o caso encerrado.

Depois de acabar de escrever isto, fecharei os olhos e tentarei encontrar a porta, correndo pela minha vida, e sabendo que atrás de mim vem a morte personificada – ou algo do género. Este é um acto desesperado, numa situação desesperada. Porque foi só por acaso que olhei o meu antigo relógio de pulso. E foi só por acaso que vi que ainda funcionava. E foi só de relance que vi o indicador da data exibir o número 25.

 

Espero que ainda seja sexta-feira.

 

Vosso para sempre,

Alexandre Nicolau.»

 

 

FIM

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