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1964: O ano dos fantasmas e dos demónios

por Safaa Dib

Muitos hoje conhecem a força do cinema de horror japonês, graças a remakes norte-americanos na última década, como The Ring ou The Grudge, adaptados para as sensibilidades ocidentais, e muitos saberão que, muita da força desse cinema, se desenvolve em torno da presença de elementos sobrenaturais como os fantasmas (yurei), demónios (oni) ou espíritos de monstros (yokai).

Voltando atrás no tempo, há que ir em busca das raízes desse cinema e dos clássicos que abriram passagem para essa mitologia e folclore japoneses. Dois filmes foram essenciais para definir o horror japonês que atravessou fronteiras, ambos com estreia no ano de 1964. Não só partilham o ano de estreia, como se baseiam em contos e parábolas que existiam no Japão desde tempos imemoriais. Tanto podem ser histórias de fantasmas que se arrastam neste plano existencial apenas para exercer vingança ou demónios que existem para atormentar humanos, mas, na essência, são histórias cujos elementos sobrenaturais expõem a vulnerabilidade humana e a constante vivência a um passo da morte. A divulgação destas lendas e mitos no Ocidente começou muito antes do cinema norte-americano, e deve-se, em parte, ao escritor do séc. XIX de origem irlandesa e grega (que também deixou a sua marca na literatura norte-americana) Lafcadio Hearn, um autor que, nos últimos anos da sua vida, se tornou um cidadão japonês e traduziu e adaptou muitas dessas histórias, construindo um Japão exótico que entrou na consciência popular na viragem do século XIX para o XX.

É precisamente com base nas histórias de fantasmas do período Edo, traduzidas por Lafcadio Hearn, que o realizador de cinema Masaki Kobayashi criou o visualmente sumptuoso, Kwaidan, que, no ano seguinte à sua estreia, não só arrebatou o Prémio do Júri do Festival de Cannes, como foi nomeado pela Academia para um Óscar. Dividido em quatro histórias independentes, não estamos perante o habitual filme de horror. Os encontros de humanos com fantasmas produzem um suspense lento e um ambiente de tensão sem violência. O propósito não é assustar o espectador com a existência de fantasmas, mas mostrar a interferência, por vezes cruel, por vezes trágica, do mundo sobrenatural na vida dos humanos. Afinal, os fantasmas eram homens ou mulheres, mas roubados pela morte e presos a emoções tão fortes que despertam forças para além da compreensão dos mortais.

Nas histórias de Kwaidan encontramos a perda e loucura causada pela vingança de um fantasma, mas também encontramos pessoas assombradas por visões de espíritos, e, nessa veia a história mais notável do quarteto, será a do músico cego, Hoishi. O seu talento para cantar a balada de uma antiga guerra japonesa, desperta os fantasmas dos heróis e soldados que ele próprio evoca nas suas canções. Todas as noites, o músico cego é conduzido por um misterioso samurai para um cemitério, onde a sua cegueira o impede de ver a corte de fantasmas cativada pelo poder da sua música e canto, numa cena de enorme beleza visual. Quando monges descobrem que a alma de Hoishi se encontra em perigo, tentam salvá-lo cobrindo o seu corpo de escrituras sagradas budistas, mas os monges cometem um erro crasso, esquecendo-se de cobrir as orelhas de Hoishi…

Do visual marcadamente expressionista de Kwaidan, saltamos para um retrato do Japão medieval cruel, a preto e branco. Baseado numa parábola budista onde uma rapariga é salva pela força da sua fé de uma mulher que finge ser um demónio, Onibaba, de Kaneto Shindo, retrata um Japão dilacerado por guerra civil entre samurais, que forçam os homens a alistarem-se nas suas lutas por poder, causando apenas miséria e destruição no país. Os camponeses são deixados à sua sorte, esfaimados, rendidos ao desespero e aos seus mais primitivos instintos de sobrevivência.

Num tempo tão negro, uma velha e a sua nora escondem-se num denso canavial onde vivem nas condições mais esquálidas. Para sobreviverem, matam os samurais que se refugiam da batalha entre os canaviais, despojando-os das suas armaduras e arsenal que são vendidos em troco de trigo e lançando os cadáveres para um poço negro. Um dia, um homem regressa com a notícia de que o filho da velha e marido da jovem fora morto numa das batalhas. Instala-se nas imediações da casa das mulheres, abertamente desejando a rapariga que tenta aliciar para encontros sexuais. Embora inicialmente relutante, a rapariga cede e todas as noites escapa da alçada da velha para encontros secretos onde se rende à luxúria e ao desejo. A tensão erótica dos amantes influencia a própria sogra, a braços com a sua frustração sexual. Rejeitados os seus avanços pelo homem, ela implora para que não lhe roube a jovem mulher, sem a qual seria incapaz de sobreviver e matar samurais.

É então que se inicia um jogo de gato e rato entre o trio, com interpretações notáveis que roçam o animalesco, em que a sogra tenta a todo o custo travar os encontros dos amantes. Uma noite, quando se encontra sozinha, um samurai com máscara de demónio perde-se no canavial e obriga-a a mostrar-lhe o caminho para a cidade. Conduzindo o samurai à sua própria morte, a velha captura a máscara de demónio e vê a sua oportunidade para induzir na jovem mulher um medo supersticioso.

A atmosfera opressiva dos canaviais, aliada a uma banda-sonora intensa de caos e frenesim, contribui para um crescendo de tensão que atinge o seu clímax no momento em que a velha é punida pela sua interferência. O filme suspende-se numa última imagem das mulheres a saltarem sobre o poço negro, a pairarem sobre a morte do mesmo modo que as suas existências precárias desafiam constantemente o oblívio e o fim. Pontuado por momentos de eroticismo e planos longos das personagens a saciarem a fome de forma voraz, Onibaba é um retrato realista e negro do indivíduo reduzido à sua condição mais primitiva e onde impera apenas a necessidade do sexo, do alimento, a necessidade de ser predador e nunca presa, de matar para viver, entre os canaviais onde não há lugar para falsos moralismos, e onde existe apenas a vontade desesperante de sobreviver contra todas as expectativas.

Tanto Kwaidan e Onibaba estão disponíveis na colecção de DVD da Criterion Classics, e são consideradas obras-primas do cinema japonês, de elevada qualidade artística, oferecendo uma experiência cinematográfica única, tão única como o folclore, lendas e superstições do antigo Japão, que marcam ainda forte presença na cultura e psique japonesa, deixando o Ocidente rendido aos seus mistérios.


*O presente texto segue a ortografia pré-Acordo Ortográfico.
Artigo retirado da
revista BANG! n.º 9, publicada em fevereiro de 2011.

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