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” A CELEBRAÇÃO” – H. P. Lovecraft

Se tiver coragem, atreva-se a ler este conto!

A Celebração , H. P Lovecraft

«Efficiunt Dæmones, ut quæ non sunt, sic tamen

quasi sint, conspicienda hominibus exhibeant59

Lactâncio

Estava longe da minha terra e dominado pelo fascínio do mar de leste. Ao crepúsculo, ouvia-o a bater contra as rochas e sabia que se encontrava mesmo por detrás da colina, em que os emaranhados salgueiros se contorciam contra um céu limpo, diante das primeiras estrelas do entardecer. E, porque os meus antepassados me tinham pedido que fosse até essa velha e longínqua cidade, continuei a caminhar sobre a fina camada de neve recém-caída, pela estrada que subia solitária, onde a Aldebarã reluzia entre as árvores, prosseguindo o meu caminho em direcção a essa cidade muito antiga que nunca vira, mas com que tantas vezes sonhara.

Era a época da Festa a que as pessoas chamavam Natal, embora soubessem muito bem que era mais velha ainda do que Belém e Babilónia, mais antiga do que Mênfis ou do que a Humanidade. Era o tempo da Festa e eu dirigia-me finalmente à velha cidade marítima em que a minha gente tinha residido e mantido a celebração desde idades remotas, quando ainda era proibida, e onde tinham ordenado aos seus filhos que a mantivessem, uma vez em cada século, para que a memória dos segredos primevos se não perdesse. Eu pertencia a um povo antigo, que já o era quando colonizaram esta terra, há três séculos. Eram pessoas estranhas, pois tinham chegado, muito morenas e furtivas, de opiáceos jardins do Sul cheios de orquídeas, e falavam uma outra língua, antes de terem aprendido a dos pescadores de olhos azuis. E agora estavam dispersas, partilhando apenas rituais de mistérios que nenhum ser vivo poderia entender. Eu era o único que se dirigia nessa noite à velha cidade piscatória, como mandava a lenda, dado que apenas os pobres e os solitários se recordavam ainda.

Então, para lá do cume da colina, contemplei Kingsport geladamente dispersa no crepúsculo vesperal; a nevada Kingsport com os seus antigos cata-ventos e campanários, enormes vigas mestras e canos de chaminés, ancoradouros e pequenas pontes, salgueiros e cemitérios, labirintos sem fim de ruas estreitas, inclinadas, tortuosas; e um vertiginoso monte central, encimado por uma igreja, em que o tempo não se atrevera a tocar; uma confusão de casas coloniais amontoadas e dispostas em vários ângulos e níveis, como blocos de madeira após um jogo de crianças; a própria antiguidade pairando, com asas grisáceas, sobre empenas e telhados amansardados embranquecidos pelo Inverno; portas com postigos em forma de meia-lua, e janelas de pequenos caixilhos cujas vidraças brilhavam, uma a uma, no frio lusco-fusco, para se juntarem a Órion e às estrelas arcaicas. E, contra os ancoradouros de madeira apodrecida batia o mar, esse mar secreto e imemorial de onde as pessoas tinham vindo nos tempos de antanho.

Ao lado da estrada, no seu cimo, elevava-se uma área ainda mais alta, erma e varrida pelo vento. Reparei que se tratava de um cemitério onde lousas escuras e dispostas ao alto irrompiam macabramente da neve, como dedos apodrecidos de um cadáver gigantesco. A estrada, sem pegadas, estava deserta e, por vezes, julguei ouvir o horrível estalar da madeira de uma forca, açoitada pela ventania. Tinham enforcado quatro antepassados meus por bruxaria, em 1692, mas já não sabia ao certo em que local.

À medida que a estrada começava a descer e a contornar a costa, tentei ouvir os sons prazenteiros de um bairro ao entardecer, mas em vão. Depois, pensei que tal se devesse à época do ano e que essas pessoas puritanas talvez tivessem hábitos natalícios que me eram estranhos, cheios de orações silenciosas junto à lareira. De modo que, depois disso, não tentei aperceber-me de sons de regozijo, nem ver se havia caminhantes. Antes continuei o meu percurso, passando por casas rurais com luzes fracas e sombrias paredes de pedra, onde tabuletas de velhas lojas e tabernas portuárias rangiam pela brisa salgada, e em que grotescas aldrabas de portais, ladeados de colunas, reluziam ao longo de vielas desertas que não estavam calcetadas, através da pouca luz que me chegava vinda das pequenas janelas de cortinas corridas.

Examinara plantas da cidade e, por isso, sabia onde encontrar a casa dos meus familiares. Disse-se que iriam conhecer-me e que seria bem-vindo, pois as lendas desse lugar eram persistentes. Assim, apressei-me pela Back Street até Circle Court, e pela neve recém-caída, até chegar ao único pavimento lajeado da cidade, onde a Green Lane continuava, por detrás da Câmara do Comércio. As velhas plantas ainda pareciam servir, e não tive qualquer dificuldade, embora me devessem ter mentido em Arkham quando me informaram que havia eléctricos que atravessavam a cidade, pois não vi nenhuns cabos por cima das ruas. A neve, de qualquer modo, poderia ter coberto os carris. Senti-me feliz por ter decidido ir a pé, visto o casario branco me ter parecido extremamente belo desde o alto da colina, e agora estava ansioso por bater à porta da minha gente, na sétima casa do lado esquerdo da Green Lane, que tinha um telhado muito inclinado e um primeiro andar saliente, e fora construída antes de 1650.

Havia luzes acesas na casa quando me aproximei e vi, através de caixilhos de chumbo e vidraças em forma de losangos, que esta fora mantida de modo a não diferir muito do seu estado inicial. A parte superior debruçava-se sobre uma rua onde cresciam ervas, e quase tocava na parte saliente da casa do lado oposto, de modo que me encontrava num túnel, onde a soleira baixa se encontrava limpa de neve. Não havia passeios, mas a maior parte das casas tinha portas altas que se alcançavam subindo dois lanços de escadas com gradeamentos de ferro. Era um estranho cenário, e dado que eu próprio era um estranho em Nova Inglaterra, nunca conhecera nada de semelhante. Embora o local me agradasse, teria gostado bem mais do que via, se tivesse detectado pegadas na neve e pessoas nas ruas, e menos janelas de cortinas corridas.

Quando bati com a arcaica aldraba de ferro, senti-me um pouco assustado. Uma certa sensação de medo acumulara-se em mim, talvez devido à estranheza das minhas raízes e à tristeza desse fim de tarde, já para não falar no silêncio indefinível que parecia percorrer essa cidade antiga de hábitos peculiares. Logo que vieram à porta senti-me verdadeiramente assustado, pois não ouvira nenhuns passos antes de ela se abrir com um rangido. Mas esse meu medo não persistiu, pois o homem na soleira da porta, de robe e de chinelos, tinha uma expressão suave no rosto que me encheu de confiança e, se bem que, através de sinais me tivesse indicado ser mudo, escreveu-me uma atraente nota de boas vindas, com um estilete, numa tábua de cera que ele trazia consigo.

Com um gesto, introduziu-me numa sala de tecto baixo, iluminada por velas, com enormes traves de madeira e uns parcos móveis, austeros e escuros, do século XVII. Era como se o passado ainda ali continuasse a existir, pois não faltava nenhum detalhe. Havia uma lareira cavernosa e uma roda de fiar, sobre a qual uma mulher idosa se curvava, envergando roupa folgada e uma touca de pala, situando-se de costas para mim a fiar em silêncio, apesar da época festiva. Uma humidade indefinida parecia entranhada nessa sala e surpreendeu-me o facto de o lume não estar bem aceso. O banco corrido, de espaldar alto, estava em frente das janelas, de cortinas cerradas, à minha esquerda, e parecia-me estar ocupado, embora eu não tivesse a certeza. Não estava a gostar de tudo quanto via e, uma vez mais, voltei a sentir o mesmo medo. Este aumentou pelo mesmo motivo que o atenuara anteriormente, pois quanto mais olhava para o rosto suave do velho, mais a sua suavidade me aterrorizava. Os olhos dele nunca se moviam e a sua pele parecia-se demasiado com a cera. Por fim, estava quase certo de que não se tratava de rosto nenhum, mas de uma ameaçadora máscara astuta. Porém, as mãos flácidas, curiosamente enluvadas, escreviam jovialmente na tábua onde ele me comunicou que eu tinha ainda que esperar um pouco, antes de poder ser conduzido ao lugar onde se realizaria a celebração.

Apontando para uma cadeira, uma mesa e uma pilha de livros, o velho abandonou a sala, e, quando me sentei para ler, reparei que os livros eram muito antigos e bolorentos, encontrando-se entre eles o antigo e despropositado Maravilhas da Ciência de Morryster60; o terrível Saducismus Triumphatus de Joseph Glanvill, publicado em 168161; o chocante Dæmonolatreia de Remigius, impresso em Lião em 159562; e, o pior de todos, o inominável Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred, na proibida tradução latina de Olaus Wormius63 — um livro que eu nunca vira, mas sobre o qual se murmuravam coisas monstruosas. Ninguém me dirigira a palavra, mas podia ouvir um ruído de tabuletas penduradas açoitadas pelo vento e o zumbir da roda, enquanto a velha de touca continuava a fiar incessantemente. Pensei que a sala, as pessoas e os livros eram demasiado mórbidos e inquietantes, mas, dado que as velhas tradições dos meus antepassados me tinham convocado para essas invulgares celebrações, decidi que teria que aceitar as coisas mais invulgares. De modo que tentei ler e, em breve, fiquei a tremer, absorto ante algo que encontrara no abominável Necronomicon: uma reflexão e uma lenda demasiado hediondas para a sanidade mental ou para a consciência. Porém, não gostei nada do que se passava, quando pensei ter ouvido o fechar de uma das janelas, em frente do banco corrido com espaldar, como se esta tivesse sido sub-repticiamente aberta. Pareceu-me seguir-se-lhe um zumbido que não era o da roda de fiar da velha senhora. Mas isso não me incomodou muito, pois a idosa fiava e fiava, e o antigo relógio de sala dera as horas. Depois disso, já não me pareceu que estavam pessoas sentadas no banco corrido com espaldar, e estava a ler, sobressaltado mas cheio de interesse, quando o homem voltou, de botas calçadas e antigos trajos folgados, e se sentou nesse mesmo banco, mas numa posição que eu não o podia ver. Sem dúvida, enervava-me essa espera e o livro blasfemo que tinha nas mãos só redobrou a minha agitação. Contudo, quando soaram as onze, o velho levantou-se, deslizou até uma maciça arca de madeira lavrada que estava a um canto, e retirou duas capas com capuz. Vestiu uma delas e pôs a outra sobre os ombros da velha, que terminara o seu monótono fiar. Em seguida, ambos se apressaram para a porta da rua — a velha arrastando-se, a coxear; o velho atrás dela, recolhendo o livro que eu estava a ler e indicando-me o caminho, enquanto colocava o capuz que lhe ocultava o rosto imóvel ou essa máscara.

Saímos para o emaranhado tortuoso e sem Lua dessa inacreditável cidade antiga. Saímos à medida que as luzes, nessas janelas de cortinas corridas, se apagavam uma a uma e a constelação Sírio observava de esguelha a multidão de silhuetas encapuçadas e encapotadas que irrompia silenciosamente de cada porta, formando monstruosas procissões, por uma e outra rua, para lá de um gemer de sinais e das empenas antediluvianas, dos telhados de colmo e das vidraças em forma de losango, percorrendo vielas íngremes, onde casas em ruínas se comprimiam e desmoronavam, deslizando por pátios e adros, onde as lanternas flutuantes formavam fascinantes e ébrias constelações.

Segui os meus guias mudos entre essa calada população, empurrado por cotoveladas que me pareciam assombradamente suaves e sentindo uma pressão de peitos e ventres que julgava serem anormalmente esponjosos, mas sem nunca ver um rosto, sem nunca ouvir uma palavra. Sempre a subir, a subir, deslizavam essas fileiras fantasmagóricas, e reparei que todos os caminhantes se congregavam, andando e convergindo no ponto em que as loucas vielas se fundiam no topo de uma alta colina no centro da cidade, onde se erguia uma enorme igreja branca. Já vira tudo da crista da estrada, ao contemplar Kingsport nesse novo entardecer, e estremecera, pois a Aldebarã parecera-me ter dançado, por momentos, no interior de uma espiral fantasmática.

Havia um espaço aberto em torno da igreja: uma parte consistia num cemitério, em que se viam aberturas espectrais na terra; outra, numa praça meio calcetada, onde o vento limpara já a neve, ladeada de sinistras casas arcaicas com telhados agudos e empenas saídas. Sobre as campas dançavam fogos-fátuos, revelando mórbidas visões, embora, estranhamente, não projectassem quaisquer sombras. Mais além do cemitério, onde não havia casas, podia ver, por cima do topo da colina, o brilhar das estrelas sobre o porto, embora a cidade permanecesse invisível por dentro da escuridão. Apenas uma vez por outra, se via, pelas vielas serpenteantes, o balançar de uma lanterna de alguém que se ia juntar à multidão que estava agora a entrar na igreja, sem proferir uma palavra. Esperei até que toda essa gente tivesse transposto o portal negro e até que todos aqueles, que se tinham atrasado, a tivessem seguido. O velho puxava-me pela manga do casaco, mas eu decidira ser o último a entrar. Foi isso que fiz, finalmente, tendo seguido o homem sinistro e a velha senhora que tinha estado a fiar. Ao atravessar a soleira e penetrar no templo apinhado, repleto de uma escuridão desconhecida, voltei-me ainda para trás e olhei para o mundo exterior, no momento em que a fosforescência do cemitério tingia o pavimento, no topo da colina, de uma luminosidade doentia. E ao fazê-lo senti um calafrio. Pois, embora o vento não tivesse deixado muita neve, algumas manchas brancas tinham, de facto, permanecido junto do portal. Nesse meu olhar para trás de relance, os meus olhos atormentados julgaram aperceber-se de que essas mesmas manchas não revelavam quaisquer traços de pegadas, nem sequer das minhas.

A igreja estava pouco iluminada, pois apesar de todas as lanternas que aí tinham entrado, grande parte da multidão já tinha desaparecido. Tinham todos caminhado em fila, através da nave, entre os altos e brancos bancos corridos, para a abertura secreta que dava acesso às criptas e se escancarava, tetricamente aberta, mesmo em frente do púlpito, tentando todos silenciosamente aí entrar. Segui-os, como que anestesiado, pelos degraus gastos, até essa húmida e sufocante cripta. Parecia-me horrível a fila criada por essa linha sinuosa de devotos nocturnos, e, ao vê-los entrar, todos contorcidos, para um venerável túmulo, ainda me pareceram mais terríveis. Em seguida, reparei que, no fundo desse túmulo, havia outra abertura, pela qual toda aquela multidão estava a deslizar, e não demorou muito até estarmos todos a descer umas escadas de mau agoiro, feitas de pedra toscamente talhada. Estas eram muito estreitas, e em espiral, e detectava-se aí uma grande humidade e um odor peculiar. Pareciam serpentear até às entranhas da colina, através de muros monótonos de blocos de pedra, de onde escorria água, e de argamassa esboroada. Era uma descida silenciosa e chocante, e observei, após uma atormentada pausa, que as paredes e os degraus eram agora diferentes, como se tivessem sido cinzelados nos sólidos rochedos. O que deveras me incomodava era o facto dessa miríade de passos não fazer qualquer ruído nem eco. Após uma descida infinita vi algumas passagens laterais ou aberturas, que, a partir de escuros ressessos, conduziam até esse grande portal de nocturno mistério. Em breve, essas passagens se tornaram excessivamente numerosas, como catacumbas ímpias de inominável ameaça, e o odor húmido e pútrido tornou-se deveras insuportável. Sabia que deveríamos ter percorrido a base da colina e caminhávamos por baixo da própria Kingsport. Tremi ao dar-me conta de que uma cidade pudesse ser tão antiga, tão cheia de vermes e tão repleta de subterrânea maldade.

Depois reparei num lúgubre tremeluzir de luz pálida, e ouvi o marulhar insidioso de ondas que nunca tinham visto o Sol. Sobressaltei-me mais uma vez, pois não gostava das coisas que a noite trouxera, e desejava ardentemente que nenhum antepassado meu me tivesse pedido para participar num ritual tão primitivo. À medida que os degraus da passagem se tornavam mais largos, ouvi um outro som, o troçar fino e chiado de uma débil flauta. De súbito, abriu-se diante de mim a visão sem limites de um mundo subterrâneo — uma costa cheia de fungos, iluminada por uma coluna que expelia uma doentia chama esverdeada, banhada por um largo rio oleoso, que corria assustadora e insuspeitamente vindo dos abismos, para se juntar aos mais negros recessos de um oceano imemorial.

Quase a desmaiar e sem fôlego, olhei para esse sacrílego Erebo64 de gigantescos cogumelos venenosos, fogo leproso e águas viscosas, e vi essa multidão de capa e de capuz formar um semi-círculo em torno do pilar aceso. Era o ritual dessa época do ano, mais velho do que o Homem e condenado a sobreviver-lhe, o rito primitivo do solstício que prometia uma Primavera após as neves, o ritual do fogo e das árvores sempre verdes, da luz e da música. E, nessa estígea gruta, vi-os proceder ao ritual, adorar esse pilar doentio e chamejante e atirarem para a água mãos cheias dessa vegetação viscosa e com um brilho esverdeado, por dentro da claridade clórica. Vi isso e algo que se acocorava de uma maneira amorfa, mais longe da luz, tocando repugnantemente a flauta; e, à medida que o ia fazendo, julguei ouvir movimentos insalubres e apagados na escuridão fétida, onde não podia ver nada. Porém, o que me assustou mais foi o pilar chamejante, vomitando como um vulcão desde zonas profundas e inconcebíveis, sem projectar qualquer sombra, como se esperaria de uma chama normal, e cobrindo a pedra salitrosa do tecto com um terrível e envenenado verde-acinzentado. Pois essa agitada combustão não libertava qualquer calor, mas apenas a humidade da morte e da corrupção.

O homem que me guiara contorceu-se até um local exactamente ao lado da horrível chama, e fez rígidos gestos cerimoniais para o semi-círculo de gente em frente dele. Em certos momentos do ritual todos revelavam uma abjecta obediência, especialmente quando ele levantava, acima da cabeça, o malfadado Necronomicon que trouxera consigo. E eu participei em todas essas obediências, pois os escritos dos meus antepassados tinham-me ordenado que participasse nessa celebração. Em seguida, o homem fez um sinal ao tocador de flauta, que mal se via na escuridão, e este mudou o seu débil zumbido para outro mais alto e num tom diferente, precipitando, ao fazê-lo, um inesperado e impensável horror. Perante tal, quase caí sobre esse chão cheio de líquenes, trespassado por um pavor que não era deste nem de outro mundo, mas tão-somente do espaço enlouquecido entre as estrelas.

Desse negrume inimaginável, para lá do tremeluzir gangrenoso dessa chama fria, desde as léguas tartáreas por onde o rio oleoso corria sinistramente, insuspeito e sem som, saiu, saltitando ritmadamente, uma horda de híbridos monstros com asas, treinados e domesticados, que nenhum olhar normal poderia conceber, ou de que nenhum cérebro no seu juízo perfeito, se poderia lembrar. Não eram bem corvos nem toupeiras, nem gaviões nem formigas, nem morcegos-vampiros, nem seres humanos em decomposição, mas algo de que me não posso nem devo recordar. Saltitaram molemente por aí, meio apoiados nas suas patas de palmípede e nas suas asas membranosas, e, ao chegarem junto dessa multidão de celebrantes, essas pessoas encapuçadas agarraram-se a eles e montaram-nos, e seguiram, uma a uma, pelos meandros desse rio às escuras, para luras e galerias de pânico onde nascentes envenenadas alimentavam tremendas cataratas invisíveis.

 

A velha que fiava tinha partido com essa gente, e o velho ficara apenas porque eu me recusara, quando ele me encorajou a agarrar num desses animais para o montar, como as outras pessoas. Quando a custo me levantei, reparei que o flautista tinha desaparecido, mas que dois desses monstros ainda aí esperavam, pacientemente. Ao afastar-me, vi que o velho, pegando no estilete e na tábua de cera, escrevia que era o verdadeiro representante dos meus antepassados, que tinham iniciado a celebração dessa Festa nesse local antigo, e que fora decretado que aí me teria que dirigir e que os mistérios mais secretos ainda não tinham tido lugar. Escreveu tudo isso numa caligrafia arcaica e, ao reparar que eu ainda hesitava, retirou do interior da sua capa um anel com uma insígnia e um relógio, ambos com o meu brasão de família, a fim de provar que ele era, de facto, quem dizia ser. Porém, tratava-se de provas hediondas, pois eu sabia, através de velhos manuscritos, que esse relógio fora enterrado, com o meu quinto avô, em 1698.

Então, o ancião retirou o capuz e mostrou-me, no seu rosto, as parecenças de família, mas limitei-me apenas a estremecer, pois estava certo de que esse rosto não passava de uma diabólica máscara de cera. Os animais saltitantes estavam agora a arranhar impacientemente os líquenes, e vi que o velho estava quase tão inquieto como eles. Quando um desses monstros começou a afastar-se, para se ir embora, ele tentou logo impedi-lo, de modo que esse movimento brusco deslocou a máscara de cera do que deveria ser a sua cabeça. E, em seguida, dado que a terrível posição em que me encontrava me vedava o acesso à escadaria de pedra por onde tínhamos vindo, atirei-me para o rio oleoso que corria algures em direcção às caves submarinas, e mergulhei nos fluidos pútridos desses horrores subterrâneos, antes que a loucura dos meus gritos pudesse despertar o ataque das legiões de cadáveres que esses abismos pestíferos pudessem albergar.

No hospital disseram-me que eu fora encontrado de madrugada, meio gelado, no Porto de Kingsport, agarrado a um mastro flutuante que, ocasionalmente, me salvara. Disseram-me que, na noite anterior, seguira o caminho errado no alto da colina, e que caíra das escarpas, em Orange Point, algo que tinham deduzido com base nas pegadas que encontraram na neve. Não havia nada que eu pudesse ter dito, porque nada batia certo. Tudo estava errado, dado que uma larga janela revelava um mar de telhados, onde apenas um em cada cinco era antigo, e havia um ruído de eléctricos e automóveis nas ruas circundantes. Insistiam que aquilo era Kingsport, e eu não os podia desmentir. Quando entrei em delírio, ao saber que o hospital ficava perto do velho cemitério, em Central Hill, enviaram-me para o Hospital de St. Mary, em Arkham, onde poderiam cuidar melhor de mim. Gostei muito de aí estar, pois os médicos tinham uma mentalidade aberta, e até usaram a sua influência para me ajudarem a obter, através da Biblioteca da Universidade do Miskatonic, um exemplar bem guardado do condenável Necronomicon. Lembro-me de terem dito qualquer coisa acerca de uma «psicose» e todos concordaram que eu deveria varrer da minha mente quaisquer obsessões que me incomodassem.

De modo que voltei a ler o terrível capítulo, e me arrepiei duplamente, pois nada daquilo era novo para mim. Tinha-o já visto antes, ainda que as minhas pegadas pudessem ter revelado outra coisa, e era bom que esquecesse rapidamente o local em que o vira. Não existia ninguém — no mundo desperto — que mo pudesse recordar, mas os meus sonhos enchem-se de terror, devido a frases que não me atrevo a citar. Apenas o farei em relação a um parágrafo, traduzido quase directamente para inglês a partir do estranho latim vulgar:

«As cavernas mais subterrâneas» escreveu o árabe louco, «não devem ser vistas por olhos inquisitivos, pois estranhas e terríveis são as maravilhas. Amaldiçoado seja o chão em que mortos pensamentos vivem através de novas e estranhas encarnações, e maldita a mente que não provém de uma cabeça. Com grande sapiência, afirmou Ibn Schacabao, que feliz é a tumba onde nenhum feiticeiro jazeu, e feliz a cidade, à noite, onde esses feiticeiros são apenas cinza. Pois há muito se murmura que a alma daqueles, na posse do diabo, não se apressa a sair do seu barro carnal, mas engorda e instrui os próprios vermes que a devoram. Até que uma vida amaldiçoada irrompa da podridão, e que os brutos predadores da terra se apressem a atormentá-la, subtilmente, e se transformem em grandes monstros e dela se apoderem. Grandes buracos se escavam secretamente onde os poros da Terra bastariam, e há seres que aprenderam a caminhar, quando deveriam apenas andar de rastos.»

59 A epígrafe retirada do livro do teólogo Cecílio Firmiano Lactâncio, Divinæ Instituitiones, significa: «Os demónios trabalham de tal modo que, para os homens, as coisas que não existem quase lhes parecem reais.»

60 Livro fictício que surge no conto de Ambrose Bierce, «The Man and the Snake», inserido no livro de contos Tales of Soldiers and Civilians (1891).

61 Trata-se de um livro publicado pelo filósofo e teólogo Joseph Glanville (1636-1680).

62 Livro publicado, também em latim, por Nicholas Remi, na data indicada.

63 Livro inventado por Lovrecraft e que é mencionado pela primeira vez no seu conto «The Hound» (1922). Olaus Wormius, ou Ole Wurm (1588-1654), no entanto, foi um filólogo e historiador dinamarquês.

64 Ser mítico, filho do Caos e da Escuridão.

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