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Revista Bang!
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TEMPO DE PAZ, TEMPO DE ASSOMBROS

É a época mais maravilhosa do ano. Até surgir uma qualquer criatura pouco beatífica e os procedimentos descambarem em desarmonias de intensidade e horrores variáveis galopantes para resoluções sem garantias de felicidade.

 

Entre a miríade de histórias piedosas, ternurentas, moralistas, ou apenas de um sentimentalismo comercial devidamente rodeado de pinheiros, neve, e indumentárias encarnadas, erguem-se outras onde caminham monstros, o caos cresce, e o terror se imiscua, alastra, às vezes diverte, às vezes asfixia.

Conhecemos-las bem.

Aliás vimo-las e revimo-las.

Os Gremlins (Joe Dante, 1984) aparecem-nos ainda com certa regularidade nos ecrãs. Às aflições mundanas de Black Christmas (Bob Clark, 1974) adicionam-se uma variedade de outras instâncias sanguíneas mais sobrenaturais, a espaços exageradas, pantomineiras, amiúde sarapintadas de humor. Como no caso dos pinheiros sencientes da curta-metragem Treevenge (Jason Eisener, 2008). Ou em Rare Exports (Jalmari Helander, 2010). Ou mesmo nas predações costumeiras e algo evangelizadoras de Krampus (Michael Dougherty, 2015).

Sem vísceras expostas porém munida de toda a incisividade de um bisturi, a ficção científica de “White Christmas” (2014), último episódio da segunda temporada da série Black Mirror, avança por uma espiral de tensão insidiosa, um acumular de choques bem distribuídos que se nos grudam, inquietam, terminam num jubilante azedo. E por entre a crescente pluralidade de tormentos, The Nightmare Before Christmas (Henry Selick, 1993) vai consolidando a faceta de clássico tão adequado ao Dia das Bruxas como a estes tempos natalícios. Ouvir Christopher Lee ler  o poema de Tim Burton que originou o filme constitui uma pequena delícia.

“A Midwinter’s Tale” (2018), o episódio de Chilling Adventures of Sabrina concebido para o período das Festas, revela-se a mais recente das incursões audiovisuais empenhadas em promover sustos e arrepios durante os últimos dias do ano. Simpático embora de certo modo inócuo, com as personagens a alongarem-se pouco além do picar o ponto e as peripécias a ameaçarem para logo se resolverem em facilidades, convoca diversas tradições pagãs que acabaram transmutadas e absorvidas pela celebração cristã hoje assaz generalizada e carregada de corporativismos.

Bem antes do menino em palhinhas deitado já se celebrava mundo fora o solstício de Inverno, relembrando que os dias cresceriam de novo, a vida persistiria e reanimar-se-ia com o Sol a cada dia mais forte. Era a altura certa para tentar influenciar a fortuna de colheitas vindouras e a sorte do gado. Um tempo de renovações, de resiliência, renascimentos, festejos em certas ocasiões bafejados por uma abundância relativa contudo adjacente ao festim. Há muito que usamos este período para empanturramentos.

Para presentes também.

Durante as Saturnais romanas, um festival centrado quer no solstício quer no vinte e cinco de Dezembro que o Imperador Aureliano decretou como data de nascimento do Sol invencível, os abastados ofereciam prendas aos pobres e trocavam-nas igualmente entre si. Enquanto as tribos germânicas de outrora deixavam pequenas dádivas para amenizar o temperamento de Ódin, por esses dias a deambular pelos céus nocturnos decidindo quem morreria e quem subsistiria mais um ano. Uma espécie de Pai Natal temporão e mais funesto.

Exemplo não exclusivo, claro.

Outras entidades ganharam fama por se empenharem em distribuir arbítrios ou mera confusão antes de o ano virar.

De facto a época tornou-se pródiga em metáforas sobre véus finos, portas abertas entre mundos, passagens desobstruídas e proximidades entre mortos e vivos e humanos e gentes paranormais. Vieram monstros, vieram bruxas. Desses outros lados de lá saíram krampus, tróis, elfos, diabretes, fantasmas e espíritos e carochos e chocalheiros, um imenso cortejo marcado por uma multiplicidade de fisionomias, características, nomes.

Em Trás-os-Montes, algures entre vinte e quatro e vinte e seis de Dezembro, os caretos, carochos, farandulos, e chocalheiros, todos figuras subversivas, todos hoje mais ou menos identificados com o diabo, continuam a endemoninhar as ruas e os habitantes das suas povoações. Nos países escandinavos existem contos populares e contos de fadas conectados com o solstício de Inverno e plenos de visitações muito pouco benéficas para humanos.

As histórias ao borralho sempre abundaram. E em tempos de Inverno enchem-se num ápice de espíritos e assombrações. Faceta aliás asseverada por Christopher Marlowe em The Jew of  Malta, uma peça estreada em 1592.

Com o gótico bem cimentado durante o século XVIII, o novo século a trazer mais e mais registos de supostas aparições espectrais, porventura consequência de alucinações resultantes de ligeiras intoxicações por monóxido de carbono, e a popularidade de A Christmas  Carol (1843) de Charles Dickens, pouco admira que o Reino Unido Vitoriano tenha desenvolvido um gosto especial por histórias de fantasmas na época natalícia, por norma lidas ou relatadas em grupo. O próprio Dickens promovia esta prática no seu periódico All the Year Round. E The Turn of  the Screw de Henry James abre com um grupo a contar histórias de terror durante a véspera de Natal.

Depressa se somaram narrativas concebidas de propósito para apelar a estes apetites, embora não necessariamente ambientadas em torno do solstício ou do Natal. Elizabeth Gaskell, Arthur Conan Doyle, Jerome K. Jerome, Edith Nesbit, foram alguns dos autores a contribuírem para o fenómeno. Mas o lugar cimeiro pertence a M. R. James.

Um aluno exímio durante os seus estudos em Cambridge e zeloso director de Eton de 1918 até à sua morte em 1936, James reunia um grupo restrito de escolhidos durante o Natal e lia-lhes os seus contos de fantasmas à luz de uma única vela. Dos doze episódios da série da BBC A Ghost Story for Christmas, um evento anual constante de 1971 a 1978 e esporadicamente retomado a partir de 2005, nove adaptam histórias de James.

Entretanto, malgrado as ocorrências pontuais que ainda subsistam, perdeu-se o hábito de usar esta época para ler em grupo histórias sombrias.

Uma questão menor.

Existem sempre as leituras solitárias, o tempo silente quando a família já dorme e a noite se adentra.

Portanto, sem mais delongas e restringindo-me a narrativas de algum modo relacionadas com o Natal, aqui fica a sugestão de sete histórias para relembrar essa vetusta tradição.

 

 

Cinco sustos e dois assombros de outra índole.

 

“Noite de Paz” (1997) de João Barreiros

Decerto um dos contos de Natal portugueses mais memoráveis e uma belíssima antítese a exageros lamechas que possam proliferar por estes dias.

Alguém declara de imediato que ao fim de vinte e cinco anos de guerra conseguiu matar um São Nicolau. Segue-se o esclarecimento, o relato de um percurso por uma terra onde a muita parafernália dos Natais contemporâneos ganha vida, significado, arranja um encantamento que o enredo quebra com estrondo nos momentos certos. Ambíguo na devida dose, munido de várias referências e acutilâncias, arquitecta um interessante jogo entre o digital e a magia, o autoritarismo tanto do comercial como do sentimental, e ainda encontra espaço para gerar uns fantasmas de Natais passados.

O jornal Combate publicou-o pela primeira vez em data entretanto complicada de apurar. Foi depois reeditado em 1997 na colectânea bilingue Efeitos Secundários, em 2003 na Utopie 3 (uma publicação do festival Les Utopiales), e integra a antologia do autor Se acordar antes de morrer (2010) que incluiu também um outro tipo de Pai Natal obrigado a enfrentar apuros inesperados.

 

“The  Festival” (1925) de H. P. Lovecraft

Em plena época de solstício de Inverno, um viajante estrangeiro vindo de terras a Sul chega a Kingsport, na Nova Inglaterra, convocado por familiares para um antigo ritual quase esquecido. As pormenorizadas descrições de Lovecraft urdem uma ambiência ao mesmo tempo hibernal e desassossegada, angustiante ainda antes de a trama se transferir para cenários subterrâneos de contornos sobrenaturais mais óbvios. Ademais os adjectivos permitem intuir a nova natureza destes arcaicos feiticeiros, uma transformação exposta no fim pela citação do Necronomicon. O que antes foi continua a ser, quer se tenha transferido ou descoberto incorporado.

Escrito em Outubro de 1923, apareceu na edição de Janeiro de 1925 da revista norte-americana Weird Tales.

 

“The  Step” (1934) de E. F. Benson

John Cresswell frequenta os clubes certos de Alexandria, move-se bem entre negócios, implacavelmente até, e cuida de si sem perder tempo com misérias alheias por muito próximas que lhe estejam. Um homem racional, aventaria o próprio, julgando que as suas práticas diárias confirmam a presença dessa característica. Quando numa noite de Outubro percebe uns passos sem corpo a seguirem-no, logo se afinca a encontrar uma explicação razoável, lógica, ainda que para tal precise de descartar algumas implausibilidades. Há que não ceder ao medo, do primeiro momento à noite de véspera de Natal em que tudo culmina.

Uma história de certo modo clássica, engendrada com eficácia, ironia, e movimentando-se pelo orientalismo típico de tantas histórias do colonialismo. Surge na antologia de Benson More Spook Stories (1934).

 

“Nicholas  Was…” (1993) de Neil Gaiman

Afinal São Nicolau vive uma infinda existência nada parecida com o que nos habituámos a imaginar.

Brevíssimo, em modo evocatório e com cada termo sopesado, saiu na antologia de Gaiman Angels and Visitations (1993) e posteriormente em Smoke and Mirrors: short fictions and illusions (1998), bem como numa variedade de colectâneas adstritas ao Natal. Parece ganhar um revérbero extra quando lido para uma audiência ou dramatizado de  outro modo.

Nicholas Was from 39 degrees north on Vimeo.

 

“Dark  Christmas” (2013) de Jeanette Winterson

Uma casa Vitoriana emprestada por um amigo que ninguém se lembra de conhecer. Um cenário nevado, distante de povoados, algures numa localidade inglesa rasante ao mar. Uma mulher sozinha à espera de companhia que tarda em chegar. Sons estranhos a meio da noite. Tudo pronto para a tradicional narrativa de espectros e arquitecturas sugestivas. Não podia faltar uma dessas.

Mesmo se as surpresas se provam parcas para leitores frequentes destes meandros, Winterson tece o enredo com habilidade. Conjura-lhe a atmosfera ideal. Alia-o a uma protagonista posta no equilíbrio desejável entre cepticismo e empatia.

Veio a público em Dezembro de 2013 num ciclo natalício de histórias de fantasmas  promovido pelo The Guardian. Mais tarde incorporou a obra de Winterson Christmas Days: 12 Stories and 12 Feasts for 12 Days (2016) onde se juntam contos, ensaios, e receitas numa mistura de qualidade às vezes instável porém prenhe de informação, delícias, rasgos góticos e sobressaltos.

 

“The Ghosts  of Christmas” (2012) de Paul Cornell

Grávida, perto da data do parto e envolvida num projecto de investigação de potencialidades revolucionárias, uma cientista teima em recordar episódios da relação conturbada com os pais, atormentando-se com a possibilidade de essas vivências a terem pré-determinado a converter-se numa péssima mãe. Escolhe exactamente o dia de Natal para actuar.

A ciência por aqui maquinada talvez assente em bases mal solidificadas, o raciocínio da protagonista presta-se a questionamentos, o seu comportamento a levantares de sobrolho, todavia o conto desembaraça-se depressa de tais fragilidades. Ou pelo menos silencia-as, fá-las pouco relevantes. Os fantasmas alegóricos agregam-se, contribuindo para um diálogo com A Christmas Carol fora dos âmbitos da fantasia e mergulhando num desespero crescente, um certo sufoco a querer antecipar catástrofes. Cornell leva-o com elegância para um final contíguo às emotividades hoje associadas à época natalícia.

Foi publicado a dezanove de Dezembro de 2012 pela tor. com, pertença da editora Tor Books.

 

“The Ghost Ships: A Christmas Story” (1993) de Angela Carter

Entre 1659 e 1681 os puritanos baniram as celebrações natalícias na Nova Inglaterra. Parava-se o trabalho. Havia demasiada festa, muita desordem, bebedeiras e orgias e pintares de caras e disfarces de animais. Um espírito descendente das Saturnais, dos seus excessos, jogos, máscaras, abolires de hierarquias. No fundo práticas que tendemos a associar ao Carnaval, quando a norma gira e volteia e fica virada do avesso.

Primeiro editado na obra de Carter American Ghosts and Old World Wonders (1993), o conto decorre na Boston obrigada a este contexto de Natal interditado por decreto e mostra-se cheio de alusões, de travessuras, incisividades a um tempo jocosas e mordazes. No âmago da noite de Natal três barcos aproximam-se com intenções de aportar. Três aparições carregadas de excessos de conotações pagãs ou demoníacas conforme a inclinação de quem judicie. Vade retro. Ou se calhar não. Entre o último parágrafo insinua-se a ideia de que por muito ascetismo que se imponha, por muito que se restrinja e crie apertos, a subversão subsistirá.

Uma bela forma de avançar pelos fins de um ciclo e os inícios do seguinte.
Talvez a melhor.

Votos de um Natal terrífico e de um novo ano repleto de boas leituras.

Inês Botelho

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