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Segundo Lugar Mini conto FNAC! – DIÁRIO DA PENSÃO

"Há cães abandonados nas frases que ainda digo, quando não calo. Oiço vizinhos uivar. Sou como muitos outros, tenho próstata, a minha vida é roer ossos, nuns dias. Outros desenterrar restos."

Mini Conto Literário” teve um segundo e um terceiro classificados. Estes dois vencedores destacaram-se entre os muitos contos que foram submetidos a concurso nesta que foi uma iniciativa com a parceria da FNAC .

O segundo lugar foi atribuído a Pedro Miguel Botelho Rosado e é com muito prazer que o divulgamos no site da Revista Bang!

Diário da pensão

Dia 1

Há cães abandonados nas frases que ainda digo, quando não calo. Oiço vizinhos uivar. Sou como muitos outros, tenho próstata, a minha vida é roer ossos, nuns dias. Outros desenterrar restos.
Como sou pretensioso chamo-lhe: supremacia dos sentidos. De sobrevivência. No mais estou prá aqui. Numa recta clara em xadrez.
Não estou sozinho. O meu mestre gatafunhou na latrina:
“A solidão é uma condição interior: evacua-a“
Fez-me reflectir. E comecei este diário.

Dia 2

A porta foi uma enorme invenção, só superada pela família e pela roda. Embora não as distinga bem. Portas e famílias, às vezes dão para lugar nenhum. É um problema doméstico. Ou miopia afectiva ?
Geralmente deixo a porta aberta. Até por ter empenado com o tempo. Assim, sento-me neste banco de pedra do nu jardim, com estes meus amigos muito chegados. Tão chegados que penso sermos um. Embora a flatulência do da direita me coloque dúvidas. Chamemos-lhe Juvenal. O da esquerda é o Anastácio. Não sofre de flatulência, sim de uma crónica verborreia.
Já não vamos a lugar nenhum. Este banco é uma imensa pátria.

Dia 3

Hoje disseram que ainda era jovem. Carregaram inconscientemente, ou não, no ainda.
É como dizer que não há gordos. São pessoas fortes. Ou têm uma condição quase extrínseca – obesidade. Uma jóia vulgar – como gravidez involuntária. Há os cheiinhos que estão em situação vantajosa, já que suscitam carinho.
Desculpem-me, acho estranho… nunca ouvi dizer dos porcos que são fortes.
Bem, esta minha página está digressiva, irrazoável. Associo-o à mudança de cozinheira ou às obsessões do Anastácio. Não se cala com os sonhos.

Dia 4

O Anastácio tem grandes ideias! E não se inibe. Acho que lhe deviam dar um ansiolítico para dormir mais profundamente. O Juvenal quer competir com ele, mas gagueja, injustamente. Por isso cala-se, ofegante. Custa não dizer o que nos vai na alma. Ainda lhe dá uma.
Tinha uma teoria sobre os sonhos. Era redonda a teoria e rebolava. Pena que não desse a pata.
Ah! Como pode ser entediante estar sentado e ter fome.
Dizia… um gajo com a idade não deixa de sonhar. Os especialistas – vi na TV odisseia – médicos, artistas de ciências americanas muito objectivas dos neurónios e sinapses eléctricas, comprimidos coloridos e terapias cognitivas – dizem que é o que nos mantém vivos.
Depois de uma frase desta envergadura tive de discordar. Falta-me sempre dinheiro para conseguir alinhar com o senso comum. Com bons sapatos consegue-se, sempre, estar mais em consonância com o mundo.
Por isso o Juvenal é tão vocálico!

Dia 5

O Anastácio atacou de novo. Maldito lado esquerdo! Até uma indeterminada idade sonha-se para a frente.
Pensei logo em milagres. Ou seria mitologia. O homem – oracular – continuou: a partir desse incerto ponto sonha-se para trás.
Que raio de geometria!
Será que esse brilho me iluminaria os dias cinzentos. A certeza é um Sol. Portanto protege-te! De imediato, pensei na minha mãe.
Acrescentou o Anastácio palavras inchadas: a maioria deles são prosaicos. O Juvenal babou-se neste preciso instante. Achei o comentário brilhante.
Prosaicos? Ora o comum, sexo e amor. Às vezes sangue. E o dinheiro, perguntei. É a posse! Pode ser um cavalo? Um prédio alto. Uma ilha. Muito queijo fundido.
O Juvenal articulou: mulheres?
Sempre! Mulheres como ninfas, para quem as distinguir pelo riso.
Muita palavra seguida é disparate. Ou génio. Distinguem?

Dia 6

Ainda mato o Anastácio! É obsessivo. Deviam desligar-lhe a TV cabo. Ou podia fazer conferências. Há anfiteatros para isso, como cruzeiros!
Insistiu: sonhar para a frente equivale a erguer pódios e palanques. Para trás é o refazer de coturnos. Sonhar é ganhar altura.
Os ortopedistas devem agradecer aos sonhadores.
Interrompeu-me: é tudo memória, geologia em camadas.
E concluiu exclamativo: come fruta e vai à praia – neste país, mar é sonho e memória.
Acho demasiado estimulante este Anastácio diário.

Dia 7

Sentamo-nos no banco habitual a ver o infalível pôr-do-sol. Magnífico.
Tenho uma certa inveja : não envelhece.
Cai um silêncio entre nós – quando não chove. O Juvenal abre invariavelmente a boca e… não diz nada. É a magia do momento. Às vezes um ligeiro fio de baba torna-o intemporal, mais próximo.
O Anastácio, já na hora dos lobos, comenta que o pôr-do-sol é uma hora inefável.
Tanta poesia pareceu-me ansiolítica e estranhei.
Era lamentável não poder contemplar o nascer. Seriam dias perfeitos.
As artroses e o inamovível banco de cimento impendem-no.
Olhamos, pois, a direito e em frente. O horizonte. Dá-nos sempre a sensação de nos fugir.
Este horizonte que foge dá-nos esperança.

Dia 8

O Juvenal morreu.

Como ele era o meu lado direito e eu sou dextro resolvi acabar com este estúpido diário.
Gosto de clareza.
Olhar para trás é como jogar às escondidas. Com sombras.

AUTOR:

Pedro Miguel Botelho Rosado

Biografia: nasci num bairro popular em Lisboa nos idos sessenta
vendi livros e tabaco
distribuí jornais por papelarias
também pesquei sardinhas na Costa de Caparica
entrementes cursei letras
comecei a ensinar nas escolas públicas
espero recompensas vãs na velhice e rouxinóis

 

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