Revista Bang!
A tua revista de Fantasia, Ficção Científica e Horror, onde podes estar a par das novidades literárias, eventos e lançamentos dos teus autores de eleição.

O SOM DE DUNWICH

Será que os Andróides Sonham com Guitarras Eléctricas? Por Ricardo S. Amorim

 

 

 

É impossível que qualquer aficionado de sci-fi, ou alguém que tenha pelo género um interesse marginal que seja, nunca tenha tido contacto com o universo de Philip K. Dick (PKD). Contudo, serão menos aqueles que realmente leram alguma das suas obras do que os que fazem essa afirmação baseados na ilusão de propriedade que dezenas de visualizações de Blade Runner lhes conferem. Nada a apontar à obra de Ridley Scott, muito pelo contrário, mas é impossível ao filme conter todas as dimensões de Do Androids Dream Of Electric Sheep? [Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Relógio de Água, 2016], e que só múltiplas leituras revelam. Isto sobre um dos mais conhecidos e acessíveis romances do escritor norte-americano falecido em 1982, meses antes da estreia de Blade Runner, mas a sua obra é composta por mais de 120 short stories e cerca de 40 romances, alguns deles de uma complexidade quase impenetrável.

PKD é o típico autor menosprezado em vida e consagrado após a morte, apesar de ter ganhado vários prémios ao longo da sua carreira. Nunca saberemos se teria esse reconhecimento em vida depois da estreia de Blade Runner nos cinemas, dado o estatuto de filme de culto que alcançou, mas a verdade é que morreu pobre e com distúrbios mentais que o perturbaram durante grande parte da vida. Não obstante, tornou-se numa das maiores referências do género (quiçá a maior), e Hollywood soube reconhecer o potencial cinematográfico da sua obra, com melhores ou piores resultados, destacando-se, de uma série de adaptações Desafio Total[Paul Verhoeven, 1990], Relatório Minoritário [Steven Spielberg, 2002] ou A Scanner Darkly – O Homem Duplo [Richard Linklater, 2006]. Nos últimos anos tem existido um interesse redobrado por PKD, logo com a sequela Blade Runner 2049 [Denis Villeneuve, 2017] à cabeça, mas também pela adaptação televisiva de O Homem do Castelo Alto (com edição portuguesa da Saída de Emergência) pela Amazon, e agora com Philip K. Dick’s Electric Dreams, uma antologia de dez episódios baseados em dez histórias de PKD, com protagonistas como Steve Buscemi ou Bryan Cranston (o Walter White, de Rutura Total).

A sua escrita evocativa e as questões humanas e filosóficas que levanta sob um cenário sci-fi também serviram de inspiração à música nos seus mais diversos quadrantes. Um dos exemplos mais conhecidos é Sister, quarto álbum dos Sonic Youth [SST Records, 1987], parcialmente inspirado na vida e obra de PKD, que teve uma irmã gémea que morreu dias depois do nascimento, e cuja memória o assombrou durante toda a vida. As referências são muitas e nos mais diversos géneros, mas como n’O Som de Dunwich temos um foco mais calibrado, hoje falamos dos Clutch e da influência de PKD nas letras de Neil Fallon, um aficionado confesso.

Um dos mais pequenos estados americanos é Maryland, que sempre teve uma cena musical efervescente. Na cena doom até se fala do som tradicional de Maryland, que tem nos The Obsessed a sua face mais reconhecida, mas também devem ser referidos os Pentagram, embora sejam do estado vizinho da Virgínia do Norte. Geograficamente, falamos num raio de cerca de 100 quilómetros a partir de Washington D.C., cidade que sempre teve uma cena punk muito activa. Os Clutch formaram-se no início dos anos 90 neste caldeirão de diferentes influências, mas a sua génese encontra-se, assumidamente, no punk hardcore, tanto em termos estilísticos como de ética do it yourself. Idolatravam os Fugazi e os Bad Brains, mas o seu som era diferente do que se fazia na altura, o que sempre dificultou a tarefa de os catalogar e inserir numa cena específica. À medida que foram alcançando maior sucesso, e assinaram por uma multinacional, tanto os tentaram colar à cena grunge (porque era um rótulo vendável), como depois ao stoner rock, que também teve o seu momento de atenção comercial na segunda metade da década de 90. Mas os Clutch, mesmo tendo elementos que se pudessem associar a cada um desses géneros, nunca se integraram em nenhum deles, fundamentalmente por cedo terem criado uma identidade muito própria. A sua evolução musical sempre teve o seu quê de regressivo, voltando ao som clássico do rock ‘n’ rol e às suas raízes no blues. Apesar do sucesso que têm alcançado, tanto nos EUA como na Europa, é uma banda que nunca conseguiu dar um salto em termos de notoriedade para o mainstream, não porque a sua música não seja apelativa o suficiente para o grande público, mas porque, mesmo quando estiveram em multinacionais, nunca cederam aos caprichos da indústria e também porque – e os próprios o reconhecem – nunca tiveram a imagem certa para tal, e assim nunca se conseguiram promover da melhor forma. A verdade é que, em certos círculos, a imagem continua a importar mais do que a essência, e passassem os elementos dos Clutch as manhãs no ginásio ou tivessem aquele look de junkie abandonado de olho azul, e hoje o grande público saberia que Earth Rocker é um dos melhores discos do género desde Back In Black dos AC/DC. Como parecem pais barbudos e com barriga de cerveja, essa verdade é apenas reconhecida por alguns – e não somos assim tão poucos, apesar de tudo.

Argumentarei perante qualquer júri que os Clutch são uma das grandes bandas de rock ‘n’roll da actualidade, que nada ficam a dever a uns Queens Of The Stone Age, por exemplo, e mereceriam semelhante popularidade. Contudo, não deixa de ser curioso que, além da já referida imagem, essa diferença de estatuto acabe por ser algo metafórica para as barreiras de género. É que mesmo quando as letras falam de mulheres desinibidas, carros rápidos e de outros clichés do rock, fazem-no com uma verve ímpar, e Neil Fallon é um letrista pouco convencional, que mistura elementos de sci-fi e fantasia com tramas políticas e teorias da conspiração. Num artigo no The Wall Street Journal, Fallon é citado em relação à ficção científica: «A sua força e principal apelo para mim é permitir-me fazer um comentário sobre a humanidade, seja num futuro utópico ou numa distopia paralela.» Tal fica bem patente em «The Face», do já referido Earth Rocker, em que num cenário distópico as grandes ferramentas do rock são consideradas ímpias no refrão, que vai alterando até à redenção final:

 

One thousand Les Pauls
Burning in a field
What rabid religion
Poisons their minds?
One thousand Jazzmasters
Thrown into the sea
What measure of madness
Governs their time?
[…]
Uncounted Les Pauls
Are sainted to the sky
Where there was darkness
Now only light
Uncounted Jazzmasters
Rising up from the bottom of the sea
The wicked are nought
The righteous are free.
[«The Face», Neil Fallon 2013]

 

Neil Fallon nomeia Duna, de Frank Herbert, como o melhor livro de sci-fi alguma vez escrito e Algo Maligno Vem Aí, de Ray Bradbury, como outro dos livros da sua vida, ambos com edição em português pela Saída de Emergência. Nos últimos quinze anos tem-se tornado especial admirador de Philip K. Dick, do qual elege a trilogia «VALIS» como as suas obras preferidas. Em 2016, num artigo na Team Rock sobre os seus dez livros preferidos, Fallon escreveu: «De modo algum o romance mais acessível de Dick (tristemente, Dick deixou esta realidade antes de poder concluir o trabalho), penso que a trilogia “VALIS” é o mais assustador retrato da linha ténue entre génio e loucura. Conspiração e paranóia precisam uma da outra. E “VALIS” tem ambas com fartura. Como tantas das suas obras, “VALIS” esteve à frente do seu tempo. Dick foi um pioneiro naquilo que se tornou agora o argumento típico de Hollywood. Em “VALIS”, ele reutiliza inteligentemente a teoria do satélite Cavaleiro Negro e, em troca, eu roubei-lhe, sem vergonha, a frase “pink rays from the ancient satellite” para a letra de “Burning Beard”.»

A influência de PKD nas letras de Fallon é especialmente notória quando escreve sobre personagens que não sabem o que é ou não real. A confluência de realidades abre-lhe possibilidades criativas, podendo misturar o real com a fantasia. «Escrever canções é uma licença para mentir. Pegamos em factos e construímos um mundo à sua volta que não é necessariamente real», disse Fallon ao jornal australiano The Sydney Morning Herald. «Uma canção com detalhes é mais tangível, parece real – pronomes abstractos são apenas vagos e facilmente esquecíveis.» Fallon conta histórias nas suas canções, muitas vezes dando nome aos personagens e aos espaços em que a trama ocorre, reais ou ficcionados. A história é contada com a convicção de um pregador, muito ao estilo de Tom Waits, não fosse ele uma das suas principais influências, a par de Chuck D, dos Public Enemy. Num dos temas mais dickianos de Earth Rocker, Fallon mistura guardas futuristas com as referências mais elementares do rock, nomeando directamente aquele que muitos historiadores referem ser o primeiro disco de rock ‘n’roll, Rocket 88, de Jackie Brenston and his Delta Cats, gravado em 1951.

Peace keeping agents from several futures,
They got a warrant out, some judge’s letter.
What it is I’m going to do, I haven’t done.
They got their probabilities, but I got somethin’ much better.

 

My Rocket 88, fastest in the land.
Crucial, crucial, velocity.
[«Crucial Velocity», Neil Fallon 2013]

 

Como o próprio nome indicia, o disco seguinte dos Clutch, Psychic Warfare (2015), leva esta influência a outro nível, e a letra de «X-Ray Visions», o primeiro single do álbum, é um exercício de dualidades e de questões que se levantam, como PKD habitualmente fazia. «Estava atraído por uma das coisas que ele fazia, que é haver sempre uma questão entre realidade e irrealidade; sanidade e insanidade; génio e loucura, e isso é algo que acho muito interessante, pois o processo criativo pode levar-te à loucura», explicou Fallon à revista New Noise. «Essa canção é sobre a paranóia de alguém que lhe afecta a sua própria leitura da realidade e que não lhe permite diferenciar quando estaria são ou não, e ele fazia isso em muitos dos seus livros», conclui. O vídeo do tema, realizado por Dan Winters, tem várias referências ao universo dickiano, e até uma fotografia do autor aparece a dado momento.

Os Clutch acabaram de gravar um novo álbum, que será editado nos próximos meses, e enquanto aguardamos por saber se esta influência se mantém no novo trabalho, fica a sugestão d’O Som de Dunwich para descoberta dos Clutch. Além dos já referidos Earth Rocker e Psychic Warfare, Pure Rock Fury e Blast Tyrant são discos que merecem ser descobertos por quem anda a passar ao lado desta grande banda.

 

%d bloggers like this: