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Light of Other Days: a História do Cinema de FC #1

À primeira vista, pode parecer difícil defender LE VOYAGE DANS LA LUNE (1902) como sendo o primeiro filme de ficção científica, estatuto que lhe é atribuído de forma quase unânime pelos historiadores do género, desde os pioneiros Carlos Clarens e John Bax

Le Voyage Dans La Lune (1902)

de George Méliès

À primeira vista, pode parecer difícil defender LE VOYAGE DANS LA LUNE (1902) como sendo o primeiro filme de ficção científica, estatuto que lhe é atribuído de forma quase unânime pelos historiadores do género, desde os pioneiros Carlos Clarens e John Baxter, até aos mais recentes divulgadores como John Scalzi ou John Costello. O filme, cuja metragem na sua moderna conversão para o formato PAL pouco ultrapassa os dez minutos, tem tanto de fantasia burlesca – de féerie, como o próprio Méliès apodava os seus filmes fantásticos – como de farsa teatral. Sobretudo, ao invés de uma representação verosímil e rigorosa de uma viagem interplanetária, apresenta-se como um exercício assumidamente escapista, uma manifestação meramente estética de repúdio à banalidade quotidiana que limita ainda o trabalho dos seus principais rivais, Pathé e Edison. É, sobretudo, uma mostra da audácia e inventividade técnica de Méliès, um homem da Renascença que, ademais do argumento e da realização, interpreta também o personagem principal e ocupa-se do design de produção, dos cenários, dos storyboards, dos efeitos especiais e da montagem.

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Centrando-nos, porém, no contexto histórico e de desenvolvimento do género, a película pioneira adquire capacidades representativas inicialmente insuspeitas. Desde logo, somos levados a ponderar um facto que, em retrospectiva, não aparece imediatamente intuído: estamos a procurar encaixar o filme no cânone cinematográfico de um género que, à data, ainda não existia. Com os seus 111 anos de idade (que se completam em 2013), LE VOYAGE DANS LA LUNE antecipa-se à codificação do género operada por Hugo Gernsback no editorial do primeiro número da sua AMAZING STORIES em Abril de 1926, e fá-lo de forma presciente, quase se diria, prototípica. E no burlesco da sua forma, acolhe um conteúdo rico de significado, quando interpretado (talvez de uma forma que não estava inteiramente presente no intuito de Méliès) no contexto formativo da ficção científica. A viagem à Lua foi, até 1969, tema central e estruturante do género, chegando mesmo a confundir-se com ele, e foi objecto de largas dezenas de figurações ao longo dos séculos XVII e XVIII. Todas elas, porém, e até à publicação de De la Terre à la Lune, de Jules Verne, em 1865, apresentavam uma intenção meramente satírica, servindo-se da Lua como representação última do impossível, com especial e danoso destaque para o famoso embuste lunar de Richard Adams Locke, trinta anos antes. Verne,pela primeira vez, propõe a Lua como um destino não só possível, mas alcançável através de meios tecnologicamente exequíveis e pragmáticos: no seu caso, uma cápsula disparada de um gigantesco canhão financiado e construído pelo Gun Club de Baltimore.

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