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O Aventesma no Escuro, H. P. LOVECRAFT

UMA INTRODUÇÃO A O DESPERTAR DE CTHULHU

Uma introdução a O Despertar de Cthulhu

por Fernando Ribeiro

Éramos dezassete na noite. Homens na flor da idade. Homens que há segundos, na brincadeira do tempo, estavam presos na felicidade das quatro paredes, na luz da rua que entrava pelas janelas, na noite igual a tantas outras, partindo carne no prato, despindo as castanhas assadas da sua casca quente, assoprando brisas frescas antes de as colocarem nas bocas das crias, de cabelos ainda quentes do banho. As nossas caras tinham sido substituídas por sombras, um recorte negro e cinzento que ocultava a expressão do nosso horror. Não sabíamos se estávamos a começar ou se acabávamos. Não sabíamos se essa cara de sombra era a nossa cara verdadeira e se os momentos atrás que se escapavam na trapalhada da memória, eram somente o sonho deste outro sonho. Uma voz feita de vento empurrou-nos para a frente e começámos a correr. No início corríamos sem ver para onde. A voz de vento empurrava-nos e não nos deixava resistir por um segundo que fosse. Se me recordo bem logo à partida, metade de nós caiu no chão, a confundir-se no pó da terra que os engolia. Um feixe de luz saía num raio de lama e de raízes, iluminando as faces dos meus companheiros que vi pela primeira e última vez, caras lembradas por alguém do outro lado do sonho, nas lágrimas surpreendidas pelos filhos, nos relatórios incompreensíveis da polícia, nas caminhadas longas dos desaparecidos que terminavam sempre na confusão do pranto ao lado do lado vazio da cama. Entrámos em passo acelerado, a favor da voz do vento, o vale apertava-se à nossa frente, estreito como uma garganta cortada por um arrepio. Corríamos como ratos numa roda de luz branca, sem vermos mais do que nos era permitido pelo contraste sombrio das irregularidades do vale. Erguendo os olhos das nossas faces tomadas pela sombra anónima, não vislumbrávamos nem o fim rente da terra adormecida por debaixo das serpentes de pedra que nos magoavam os pés, rápidos neste jogo do qual não conhecíamos as regras; nem o principio dos céus, altos demais por entre as fendas cortadas pelas mãos de que deuses ou demónios, superiores ao nosso tempo e espaço, asfixiados nos nossos corações que pulavam, sanguíneos de desespero. Sentia-me como que numa caixa enorme, da qual não conhecia nem Norte, nem Sul; Leste ou Oeste. Corria no meio desta caravana grotesca, negra, sem forma, homens jogando jogos de deuses, homens de pó, ratos na roda da vida que já não sabíamos ser nossa ou Deles. Não sei há quanto tempo corríamos já desde que nos largaram aqui, ainda cobertos da placenta segura das nossas outras vidas imaginadas, quando saímos do feixe cortado na montanha, um colosso liso e vertical, impossível de escalar mesmo na curiosidade dos céus. A nossa respiração foi ficando cada vez mais profunda à medida que os nossos passos se tornavam lentos, a voz do vento mais gentil para com as nossas costas, como se em vez de nos empurrar, nos amparasse nesta paragem forçada, com delicadeza, por caprichos que nunca, mas nunca iríamos compreender. À nossa frente estendia-se uma cidade de cinzas, da qual ao princípio não intuímos a grandeza. Chaminés ao nível dos nossos pés esfumavam ainda refeições e confortos sonhados, paredes escondidas sussurravam ainda batuques de conversas e ruídos domésticos deixados a meio na surpresa da morte, janelas que não nos viam nem nos deixavam ver para dentro daquelas vidas. Caminhámos primeiro com os olhos e depois com os corpos até à praça central varrida por uma brisa que afastava o cinzento dos restos e deixava ver o branco antigo do chão, calcado por vidas cujo sentido nos tinha escapado para sempre. Caminhámos para o interior branco da praça e olhámos em círculo. O nosso olhar colectivo encontrou-se na luz trémula, amarela que saía do andar térreo de uma pequena casa, quase uma cabana, feita de pedra vermelha e de madeira, que resistia de pé, sustentada por uma alma que, de algum modo, tinha sobrevivido às hecatombes do passado. Mais tarde viria a perceber que esta habitação tinha sido poupada pela misericórdia com que se poupam as testemunhas de um massacre, pela crueldade com que se salvam os amigos dos mártires, uma casa cheia de cicatrizes de Sol e de Lua que neste local se confundiam na noite do dia, uma testemunha que nos convidava, silenciosa, a nós, testemunhas também, a espreitá-la pela retina invertida das suas pequenas janelas de luz quadrada e doente, amarelo-torrado e laranja, pintando o vulto do homem que se mexia dentro da única sala, uma outra sombra de traços cruéis à luz do petróleo, da pequena chama que nos lembrava algo perdido. O homem dirigiu-se à estante e soprou o pó esverdeado de alguns volumes. Retomou o seu lugar na mesa que ocupava a totalidade de um canto da sala, voltada para uma parede sangrando molduras e escritos que não se distinguiam na ditadura da escuridão interior. Retirou da gaveta um cilindro que emitia uma luz misteriosa fazendo-nos agachar na nossa penumbra no medo de sermos expostos àquela visão cruel de homem, e pô-lo em cima da mesa, junto a uma mala enorme de couro. O cilindro iluminou toda a sala deixando a descoberto uma janela enorme do outro lado, com vista sobre um lago de nevoeiro. Avancei uns passos ao redor da cabana mas numa volta completa não consegui encontrar o caminho até aquela nuvem vaporosa que se apresentava na moldura daquela enorme janela. Voltando ao meu nicho, consegui ainda ver o homem a retirar uma espécie de máquina da mala de couro, ornamentada por uns tubos acústicos, dos quais pendia uma espécie de carne líquida, a gotejar lágrimas que se espalhavam pelos mil suspiros da sala. A sombra do homem introduziu o cilindro num dos tubos verticais e a máquina animou-se, ondulando o corpo na direcção daquele que lhe tinha dado vida. O homem puxou um dos tubos que fez uma curva de carne e aproximou-o da sua boca. A sua voz era grave e recortada no nosso sono puxando-nos até dentro das suas palavras, secretas e assustadoras, no tom primordial das revelações sobre aquilo que não deve ser dito ou ouvido na pequenez do sonho da nossa existência.

O Aventesma no Escuro

H. P. Lovecraft

Escrito em 1935 e publicado originalmente na revista “Weird Tales”, Dezembro de 1936

Tradutor: Tiago Rosa

(Dedicado a Robert Bloch)

Vi o escuro universo revelar-se, Onde, negros, os planetas rolam sem chama — Onde eles rolam, do seu horror desapercebidos, Sem conhecimento ou lustro ou fama.

–Némesis.19

Cautos investigadores hesitarão em pôr em causa a opinião generalizada de que Robert Blake teria sido morto por um raio, ou por algum profundo choque nervoso derivado de uma descarga eléctrica. É verdade que a janela à sua frente se encontrava intacta, mas a Natureza já se manifestou capaz dos mais aberrantes fenómenos. O trejeito na sua face pode muito bem ter surgido de uma obscura fonte muscular não relacionada com algo que ele tivesse visto, enquanto que as entradas do seu diário são o resultado claro de uma imaginação fantástica, fomentada por certas superstições locais e por algumas velhas questões que ele desvendara. Quanto à situação anómala na igreja abandonada de Federal Hill — o sagaz analista não hesitará em atribuí-la, consciente ou inconscientemente, a alguma charlatanice a que Blake estaria secretamente ligado. Pois, afinal de contas, a vítima era um escritor e pintor totalmente dedicado ao campo do mito, do sonho, do terror e da superstição, e ávido, na sua busca, por cenários e efeitos do género bizarro e fantasmal. A sua primeira estadia na cidade — numa visita a um estranho velhote, como ele tão profundamente entregue ao oculto e a estranhas ciências — acabara entre morte e chamas; deve ter sido algum instinto mórbido que o fez ausentar-se de sua casa, em Milwaukee. Talvez tivesse sabido das velhas histórias, apesar das declarações, no seu diário, afirmarem o contrário, e a sua morte deve ter posto fim a alguma estupenda patranha destinada a uma reflexão literária. Porém, entre os que examinaram e correlacionaram todas essas provas, encontram-se aqueles que se mantêm fiéis a teorias menos racionais e triviais. Estão mais inclinados a acreditar no aparente valor do diário de Blake, e a apontar, significativamente, para certos factos, tais como a incontestável autenticidade do registo da velha igreja; a comprovada existência, anterior a 1877, da execrada e heterodoxa seita religiosa Sabedoria Estelar; o registo do desaparecimento de um inquisitivo repórter chamado Edwin M. Lillibridge, em 1893; e — acima de tudo — para a descomunal e transfigurada expressão assustada na cara do jovem escritor, depois de morto. Fora um destes crentes que, impelido a extremismos fanáticos, atirou para a baía a pedra curiosamente angular e a sua caixa de metal, estranhamente adornada, encontradas no campanário da velha igreja — no negro campanário sem janelas, e não na torre onde o diário de Blake dizia que essas coisas realmente estavam. Ainda que formal e informalmente bastante criticado, esse homem — um médico conceituado, com propensão para excêntricos saberes populares — declarou que assim se livrara a Terra de algo demasiado perigoso para que nela permanecesse. De entre estes dois pareceres, deve o leitor julgar por si próprio. Os documentos mostraram detalhes tangíveis de uma perspectiva céptica, deixando para outros a visualização da cena como Robert Blake a viu — ou pensou que viu — ou pretendeu ver. Agora, estudando o diário de perto, imparcialmente e com tempo, resumamos o misterioso encadear dos acontecimentos do ponto de vista expresso pelo protagonista. O jovem Blake voltou a Providence no Inverno de 1934-1935, instalando-se no último andar de uma vetusta habitação, com pátio relvado, longe de College Street — no cume do grande monte, a leste, perto dos terrenos da Universidade de Brown e por detrás da Biblioteca em mármore, John Hay. Era um lugar confortável e fascinante, num pequeno oásis ajardinado, de rústica antiguidade, onde enormes gatos amistosos se expunham ao Sol, no topo de um conveniente telheiro. A quadrangular casa georgiana tinha um telhado com clarabóia; uma entrada clássica, com uma vidraça entalhada em forma de meia-lua; janelas de pequenos caixilhos e todas as outras marcas que identificam a mão-de-obra dos princípios do século XIX. Lá dentro havia portas com seis almofadas; soalhos de tábuas largas; uma escadaria colonial curva; prateleiras brancas de chaminé do período Adam20; e uma série de divisões nas traseiras, três degraus abaixo do piso principal. O gabinete de estudo de Blake, um amplo quarto virado a sudoeste, dava, num dos lados, para o jardim da frente, enquanto que as janelas viradas a oeste — perante uma das quais ele tinha a secretária —, estando fora do alcance visual do cume do monte, descortinavam uma vista esplêndida sobre a extensão de telhados mais baixa da cidade e sobre os místicos pores-do-sol que ardiam por detrás deles. No longínquo horizonte, viam-se as encostas purpúreas do campo. Contra estas, a uns três quilómetros de distância, erguia-se, protuberante, Federal Hill, numa confusão de telhados amontoados e campanários, cujos remotos contornos ondeavam misteriosamente, tomando formas fantásticas, à medida que o fumo da cidade rodopiava e se emaranhava neles. Blake tinha a curiosa sensação de estar contemplando um desconhecido mundo etéreo, que poderia esvair-se, ou não, em sonho, se alguma vez o tentasse alcançar e nele entrasse pessoalmente. Tendo encarregue alguém de lhe enviar para casa a maior parte dos seus livros, Blake comprou alguma mobília antiga, adequada aos seus aposentos, acomodando-se para escrever e pintar — morando sozinho, e atendendo ele próprio ao afazeres domésticos. O seu estúdio era numa água-furtada virada a norte, cujas vidraças da clarabóia proporcionavam uma excelente iluminação. Durante esse primeiro Inverno ele produziu cinco dos seus contos mais conhecidos, «O Habitante do Subsolo», «As Escadas da Cripta», «Shaggai», «No Vale de Pnath» e «O Celebrante Vindo das Estrelas», e pintou sete telas; obras de abomináveis monstros inumanos e de lugares profundamente alienígenas, extraterrestres. Ao pôr-do-sol sentava-se frequentemente à sua secretária e fixava, sonhadoramente, a vastidão a oeste — as lúridas torres do Memorial Hall, logo abaixo, os campanários do tribunal georgiano, os soberbos pináculos da baixa, e aquela saliência tremeluzente de coroa pontiaguda, na distância, cujas desconhecidas ruas e labirínticas empenas excitavam, tão intensamente, a sua imaginação. Dos poucos conhecidos que fez no local, veio a saber que a encosta ao longe era um vasto bairro italiano, embora a maior parte das casas fosse o que restava ainda dos tempos mais antigos dos ianques e irlandeses. Uma vez por outra fazia incidir o seu binóculo sobre aquele espectral mundo longínquo, para lá das volutas de fumo, escolhendo determinados telhados, chaminés e campanários, especulando sobre os bizarros e curiosos mistérios que eles poderiam conter. Mesmo com essa ajuda óptica, Federal Hill parecia algo estranho, meio feérico, e ligado ao irreal e intangível maravilhoso dos próprios contos e pinturas de Blake. Essa sensação persistia mesmo muito depois da encosta se ter esmorecido num crepúsculo violeta de iluminação estrelar, e dos projectores do tribunal e do farol vermelho do edifício Industrial Trust21 se terem acendido, tornando a noite grotesca. De todos os distantes objectos de Federal Hill, uma enorme e lúrida igreja era aquele que mais fascinava Blake. Sobressaía com singular distinção em determinadas horas do dia, e, ao pôr-do-sol, a grande torre e o seu cónico campanário avultavam-se, umbrosamente, contra o céu flamejante. Parecia repousar numa elevação de terra especial; pois a severa fachada, a imagem oblíqua que o lado norte dava do telhado e das extremidades superiores das grandes janelas ponteagudas, erguia-se vigorosamente acima do emaranhado de vigas-mestras dos telhados e das chaminés. Peculiarmente severa e austera, parecia ser feita de pedra, manchada e desgastada pelo fumo e pelas tempestades de vários séculos. O estilo, tanto quanto o binóculo revelava, era daquela forma experimental de revivalismo neogótico, que precedeu o imponente período Upjohn22 e manteve algumas das ideias gerais e proporções da época georgiana. Talvez tivesse sido erigida por volta de 1810 ou 1815. Com o passar dos meses, Blake observava a distante estrutura sinistra com crescente e estranho interesse. Dado que nas grandes janelas nunca se via luz, acreditava que estivesse abandonada. Quanto mais observava, mais a sua imaginação trabalhava, até que, por fim, começou a congeminar coisas curiosas. Acreditava que uma vaga e singular aura de desolação pairava sobre o local, de tal modo que até os pombos e pardais evitavam os seus fuliginosos beirais. Em torno de outras torres e campanários, o seu binóculo revelava grandes bandos de pássaros, porém eles nunca ali poisavam. Pelo menos era isso que ele julgava e que assentou no seu diário. Referiu o local a vários amigos, mas nenhum deles tinha estado em Federal Hill ou tinha sequer a menor ideia do que a igreja era ou tinha sido. Na Primavera, uma profunda inquietação apoderou-se de Blake. Tinha começado o romance há muito planeado — baseado na suposta sobrevivência do culto de bruxas, no Maine — mas, estranhamente, foi incapacitado de o continuar. Cada vez mais ele se sentava à janela virada a oeste, fixando o monte distante e o negro e sombrio campanário que os pássaros evitavam. Quando as delicadas folhas surgiram nos ramos do jardim, o mundo encheu-se de uma nova beleza, mas a inquietação de Blake continuava simplesmente a aumentar. Foi então que pensou, pela primeira vez, em atravessar a cidade e subir a fantástica elevação de terra, em direcção ao mundo onírico engrinaldado de fumo. No final de Abril, exactamente antes da celebração da remota e ensombrada noite de Santa Valpurga23, Blake faz a sua primeira caminhada até ao desconhecido. Caminhando árdua mas persistentemente pelas intermináveis ruas da Baixa e pelos ermos quarteirões arruinados mais adiante, chegou, finalmente, à ascendente avenida de degraus gastos pelos séculos, aos alpendres dóricos descaídos, e às turvas cúpulas envidraçadas, que ele sentia serem o ponto de partida para o tão sonhado mundo longínquo para além das brumas. Havia sujas placas toponímicas, azuis e brancas, insignificantes para ele, e logo reparou nas estranhas faces sombrias dos transeuntes, e nos letreiros em língua estrangeira por cima de curiosas lojas estabelecidas no interior de edifícios castanhos gastos pelo tempo. Em lado nenhum conseguia ele encontrar qualquer objecto que tivesse avistado de longe; o que mais uma vez lhe fez acreditar que Federal Hill, quando contemplada de longe, era um mundo onírico a nunca ser pisado por pés de seres humanos vivos. Uma vez por outra avistava-se uma desgastada fachada de igreja ou uma agulha de torre esboroada, mas nunca a negra construção que ele procurava. Quando perguntou a um comerciante acerca da grande igreja de pedra, o homem sorriu e abanou a cabeça, se bem que falasse fluentemente inglês. Quanto mais Blake subia, mais a região parecia estranha, com confusos labirintos de melancólicas e estreitas ruas castanhas, dirigindo-se eternamente para sul. Ele atravessou duas ou três amplas avenidas e, por momentos, julgou ter vislumbrado uma torre familiar. Inquiriu mais uma vez um outro comerciante sobre a robusta igreja de pedra, mas dessa vez podia jurar que o grau de desconhecimento era simulado. A face do homem moreno tinha um olhar de medo, que este tentava disfarçar, e Blake viu-o a fazer um curioso sinal com a mão direita. Então, de repente, uma negra agulha de torre ergueu-se no céu nublado, à sua esquerda, acima das camadas dos telhados castanhos, que alinhavam as emaranhadas ruas estreitas que se dirigiam para sul. Blake soube imediatamente do que se tratava, e lançou-se nessa direcção, através das esquálidas veredas sem pavimento. Duas vezes se perdeu, mas, mesmo assim, não se atreveu a fazer perguntas a nenhum dos patriarcas ou donas de casa que se sentavam na soleira, nem a nenhuma das crianças que gritavam e brincavam na lama das sombrias ruelas. Por fim viu com clareza a torre a sudoeste, em que um grande volume de pedra se erguia no fim de uma rua estreita. Dentro em pouco encontrou-se num espaçoso largo, singularmente calcetado, com um alto muro circundante, no lado mais afastado. Chegara ao fim da sua procura; pois sobre a grande chã vedada e cheia de ervas daninhas a que o muro dava suporte — um mundo mais pequeno e isolado, erigido, na totalidade, a dois metros acima das ruas em redor — lá estava o severo e titânico volume, cuja veracidade, apesar da nova perspectiva de Blake, era indiscutível. A igreja abandonada estava num estado de grande decrepitude. Alguns dos altos pilares de pedra tinham caído, e vários delicados florões jaziam meio perdidos por entre as secas e descuidadas ervas daninhas e gramíneas. As fuliginosas janelas góticas estavam intactas, contudo muitos dos pinázios de pedra faltavam. Blake interrogou-se como poderiam os obscuros vitrais das janelas ter resistido tão bem, tendo em vista os hábitos normais dos gaiatos em todo o mundo. As portas maciças estavam intactas e bem fechadas. No topo do muro circundante, vedando completamente a área, havia um ferrugento gradeamento em ferro, cujo portão — no cimo de um lanço de degraus vindo do largo — se encontrava visivelmente fechado a cadeado. O caminho, do portão ao edifício, estava completamente coberto de ervas. A desolação e a ruína assentavam como que um sudário sobre o local, e nos beirais sem pássaros e nas negras paredes sem heras, Blake sentiu um toque de vago sinistro, que estava além do seu poder para o definir. Havia muito poucas pessoas no largo, mas Blake viu um polícia no outro lado e aproximou-se dele para fazer perguntas sobre a igreja. Tratava-se de um robusto irlandês e seria estranho que apenas se limitasse a fazer o sinal da cruz e a murmurar que as pessoas nunca falavam daquele edifício. Quando Blake o inquiriu, ele disse muito apressadamente que os padres italianos tinham posto toda a gente de sobreaviso, asseverando que um mal monstruoso tinha uma vez lá habitado e deixado a sua marca. Ele próprio ouvira de seu pai obscuras insinuações acerca disso, ao recordar certos ditos e rumores da sua infância. Existira aí uma má seita religiosa, nos tempos de antanho — uma seita marginal que invocava coisas terríveis, vindas de algum desconhecido abismo da noite. Fora necessário um bom padre para exorcizar o que se tinha revelado, no entanto houve quem dissesse que apenas a luz o poderia fazer. Se o padre O’Malley fosse vivo, teria muito que contar. Mas, agora, não havia nada a fazer senão deixar as coisas como estavam. Já não prejudicava ninguém, e aqueles que com isso se relacionavam estavam mortos ou em lugares distantes. Fugiram como ratazanas depois da ameaça de 1877, quando se começaram a preocupar com o modo como as pessoas, de vez em quando, desapareciam na vizinhança. Qualquer dia a Câmara Municipal tomaria conta do lugar por falta de herdeiros, mas não seria bom se alguém tentasse aproximar-se. O melhor era ignorar essa igreja até que se derruísse; que não se lhe mexesse, que ficasse adormecida para sempre no seu negro abismo. Depois do polícia se ter ido embora, Blake ficou especado a contemplar o lúgubre campanário. Excitava-o saber que o edifício parecia tão sinistro para outros como lhe parecia a ele, e devaneava sobre que vestígio de verdade estaria por detrás das velhas histórias que o polícia mencionara. Provavelmente, seriam meras lendas evocadas pelo aspecto sinistro do local, porém eram como se um dos seus próprios contos se tivesse tornado realidade. O Sol vesperal surgiu por detrás de um dispersar de nuvens, mas pareceu ineficaz em iluminar as paredes sujas de fuligem do velho templo que se elevava no seu alto terreiro. Era de estranhar que o verde da Primavera não tivesse tocado a seca e murcha vegetação no interior do gradeamento em ferro do recinto. Blake chegou-se perto da respectiva área, para examinar a parede alta e a vedação enferrujada a fim de descobrir possíveis acessos. O templo enegrecido despertava-lhe uma tremenda atracção, a que lhe era impossível resistir. No gradeamento não havia nenhuma abertura após os degraus, mas num outro lado, a norte, faltavam algumas grades. Podia subir os degraus e andar sobre o estreito caminho cimentado, do lado de fora do gradeamento, até encontrar a abertura. Dado que as pessoas temiam tanto o lugar, não encontraria nenhum impedimento. Encontrava-se já no aterro e quase dentro do gradeamento, sem que ninguém desse por isso. Depois, ao olhar para baixo, viu as poucas pessoas que se encontravam no largo, afastando-se e fazendo o mesmo sinal com a mão direita, tal como o comerciante na avenida. Várias janelas bateram ruidosamente, e uma mulher gorda precipitou-se para a rua e puxou algumas crianças para dentro de uma casa pouco sólida e por pintar. A abertura no gradeamento era de fácil acesso, e logo Blake se viu a caminhar, com grande dificuldade, por entre a apodrecida vegetação emaranhada do recinto deserto. Aqui e acolá, bocados gastos de uma pedra tumular contaram-lhe que tinham já ali havido enterros; mas isso, reparou, devia ter sido há muito tempo. O simples volume da igreja mostrava-se opressivo agora que estava perto dele, mas ganhou coragem e aproximou-se para tentar abrir uma das três grandes portas da fachada. Estavam todas bem fechadas, começou então a rondar o ciclópeo edifício, à procura de alguma entrada mais pequena e mais facilmente penetrável. Mesmo então, ele não tinha a certeza se desejava entrar naquele antro de abandono e sombra, contudo, a força do seu estranho aspecto, incitou-o automaticamente. Uma janela escancarada e desobstruída que dava para a cave, nas traseiras, era a abertura pretendida. Ao espreitar, Blake viu um amontoado subterrâneo de teias de aranha, e pó levemente iluminado pelos raios do Sol poente que por lá se infiltravam. Destroços, barris velhos, caixas arruinadas e mobília de numerosos estilos foi o que os seus olhos encontraram, embora um manto de pó jazesse sobre tudo, suavizando todos os contornos agudos. Os restos enferrujados de uma caldeira de aquecimento mostravam que o edifício tinha sido usado e conservado até meados do Período Vitoriano. Actuando quase sem iniciativa própria, Blake arrastou-se através da janela e deixou-se descer até ao tapete de pó e destroços que cobriam o chão. A cave abobadada era grande, sem divisões, e, num canto afastado, à direita, entre densas sombras, ele viu uma escura arcada que conduzia, sem dúvida, ao piso superior. Sentiu uma estranha sensação de opressão pelo facto de estar realmente dentro do grande edifício espectral, mas estava atento, à medida que sondava o lugar cautelosamente — encontrando um barril ainda intacto no meio do pó, e rolando-o até à janela aberta para precaver a sua saída. Depois, retemperando-se, atravessou o imenso espaço engrinaldado de teias de aranha, em direcção à arcada. Meio chocado com toda aquela poeira, e coberto de fantasmáticos fios de teias de aranha, alcançou e começou a subir os gastos degraus de pedra que davam para a escuridão. Não tinha nenhuma lanterna, continuou então, cuidadosamente, às apalpadelas. Depois de uma curva apertada, deparou-se com uma porta fechada, em frente, e, tacteando um pouco, deu com a sua antiga aldraba. Abriu-se para dentro, e depois viu um corredor fracamente iluminado, revestido de painéis de madeira carcomida. Já no rés-do-chão, Blake começou a explorar tudo de uma forma rápida. Todas as portas interiores se encontravam destrancadas, o que lhe facilitou a passagem de uma divisão a outra. A nave colossal era um lugar quase sobrenatural, com as suas correntes de ar e montanhas de pó sobre os bancos, sobre o altar, sobre o púlpito em forma de ampulheta, sobre a caixa de ressonância, e com os seus titânicos fios de teias de aranha esticando-se entre as arcadas pontiagudas da galeria e entrelaçando-se nas colunas góticas amontoadas. Sobre toda esta abafada desolação incidia uma medonha luz plúmbea, à medida que o occíduo Sol vesperal lançava os seus raios através dos estranhos vitrais escurecidos das grandes janelas absidais. Os desenhos daquelas janelas estavam tão obscurecidos pela fuligem, que Blake mal podia decifrar o que eles representavam, mas não gostou do pouco que conseguiu perceber. Os desenhos eram assaz convencionais, e o seu conhecimento sobre simbolismo obscuro disse-lhe muito acerca de alguns dos antigos padrões. Os escassos santos descreviam expressões enfastiadas, distintamente abertas a críticas, enquanto que uma das janelas parecia mostrar apenas um espaço negro com espirais de curiosa luminosidade. Desviando o olhar das janelas, Blake reparou que a cruz, por cima do altar, coberta pelas teias de aranha, não era do género comum, mas antes semelhante à primordial cruz ansada, do umbroso Egipto. Numa sacristia ao fundo, próxima do ábside, Blake encontrou uma secretária apodrecida e prateleiras até ao tecto com bolorentos livros delidos. Aqui, pela primeira vez, ele teve um claro choque de verdadeiro horror, pois os títulos desses livros diziam-lhe muito. Falavam de negras coisas proibidas, de que a maior parte das pessoas normais nem sequer ouvira falar, ou ouvira apenas através de furtivos sussurros timoratos; falavam dos banidos e temidos repositórios de segredos equívocos e fórmulas imemoriais que se infiltraram através dos tempos, desde o despertar do Homem e dos ténues dias fabulosos antes do seu aparecimento. Ele próprio lera muitos deles — uma versão em latim do detestado Necronomicon24, o sinistro Liber Ivonis, o infame Cultes des Goules do Conde d’Elette, o Unassprechlichen Kulten de von Juntz, e o avernal De Vermis Mysteriis do velho Ludvig Prinn. E havia outros que tinha conhecido meramente por reputação, ou que não conhecia de todo — os Manuscritos Pnacóticos, o Livro de Dzyan, e um volume quase desfeito, de caracteres integralmente não identificáveis, mas com certos símbolos e diagramas pavorosamente reconhecíveis para um estudioso do oculto. Claramente, os espalhados rumores locais não mentiam. Este sítio fora, em tempos, a morada de um mal mais antigo do que a espécie humana e maior do que o Universo já conhecido. Na secretária arruinada estava, encadernado a couro, um livro de registos com entradas de um estranho código criptográfico. O texto do manuscrito consistia nos símbolos comuns e tradicionais que se utilizam hoje em astronomia e, antigamente, em alquimia, astrologia e outras ciências dúbias — o emblema do Sol, da Lua, dos planetas e seus vários aspectos, e dos signos do Zodíaco — aqui reunidos em copiosas páginas de texto, com divisões e dispostas em parágrafos, sugerindo que cada símbolo correspondia a uma letra alfabética. Tencionando resolver mais tarde o criptograma, Blake meteu o livro no bolso do casaco. Muitos dos grandes tomos nas prateleiras fascinaram-no por completo, o que o fez sentir-se tentado a levá-los numa outra altura. Estranhou como puderam permanecer tanto tempo intactos. Teria sido ele o primeiro a vencer o medo penetrante que protegera esse lugar de visitantes durante aproximadamente sessenta anos? Tendo já explorado minuciosamente o rés-do-chão, Blake enveredou de novo pelo pó da nave espectral até à antecâmara em frente, onde tinha visto uma porta e uma escadaria que presumivelmente levavam à torre e ao campanário enegrecidos — objectos que, à distância, lhe eram tão familiares. Subi-la, era uma experiência asfixiante, devido à densidade do pó, enquanto que as aranhas tinham já feito o pior nesse lugar apertado. A escadaria era em espiral, com altos e estreitos degraus de madeira, e, de vez em quando, Blake passava por uma janela embaciada que se lançava, vertiginosamente, sobre a cidade. Se bem que lá em baixo não vira cordas dependuradas, esperava encontrar um sino, ou um conjunto de sinos, na torre, cujas estreitas janelas ogivais, com persianas, o seu binóculo tão amiúde estudara. Mas foi vítima de decepção, pois quando alcançou o topo das escadas, encontrou o espaço vazio de quaisquer sinos, e visivelmente dedicado a funções totalmente diferentes. Esse espaço, com cerca de quinze metros quadrados, estava vagamente iluminado por quatro janelas ogivais, uma de cada lado, cujos vidros tinham sido pintados por dentro, até aos caixilhos das persianas apodrecidas. Àquelas tinham sido posteriormente ajustadas armações em rede opaca; estas estavam já muito apodrecidas. A meio do chão, cheio de pó, erguia-se um curioso pilar de pedra, angular, com cerca de um metro de altura e meio metro de diâmetro, coberto, em cada lado, de hieróglifos bizarros, toscamente cinzelados, e totalmente irreconhecíveis. Em cima deste pilar estava uma caixa de forma peculiarmente assimétrica; a tampa estava aberta, e o seu interior revelava o que parecia ser, sob o espesso pó das décadas, um objecto oval ou irregularmente esférico, com uns oito centímetros de um extremo ao outro. Em torno do pilar, num vago círculo, dispunham-se sete cadeiras góticas, de encosto alto, ainda completamente intactas, enquanto que atrás delas, alinhadas ao longo das escuras paredes apaineladas, se encontravam sete colossais imagens esboroadas, de gesso pintado de preto, parecendo-se, mais do que qualquer outra coisa, aos ocultos megálitos esculpidos da misteriosa Ilha da Páscoa. Em um dos cantos dessa câmara, cheia de teias de aranha, fora esculpida uma escada na parede, que levava ao alçapão fechado do campanário sem janelas. À medida que Blake se acostumava à penumbra, reparou nos baixos-relevos esquisitos da estranha caixa aberta de metal amarelado. Aproximando-se, tentou limpar-lhe o pó com as mãos e com o lenço de bolso, e viu que as figuras eram de um género inumano e totalmente alienígena, descrevendo entidades que, embora parecessem vivas, não se assemelhavam a nenhuma forma de vida que alguma vez tivesse evoluído neste planeta. A aparente esfera de oito centímetros parecia-se a um poliedro quase preto, com estrias vermelhas e muitas superfícies planas e irregulares; ou a uma qualquer espécie de cristal muito distinto, ou a um objecto artificial, de matéria mineral, esculpido e altamente polido. Este não tocava o fundo da caixa, estava antes suspenso por uma tira de metal em torno do seu centro, com sete suportes singularmente desenhados, estendendo–se horizontalmente para os ângulos da parede interna da caixa, perto do topo. Esta pedra, uma vez exposta, originava em Blake uma fascinação alarmante. Mal conseguia tirar os olhos dela, e, ao contemplar as suas superfícies reluzentes, quase imaginou que fosse transparente, com espantosos mundos semi-formados no seu interior. Na sua mente flutuavam imagens de estranhos orbes, com grandes torres de pedra, e outros orbes com montanhas titânicas e sem sinais de vida, e espaços imóveis, ainda mais remotos, onde somente um agitar, nos vagos negrumes, remetia para a presença de uma consciência e de uma vontade. Quando desviou o olhar, foi para dar atenção a um monte de poeira algo curioso, junto ao canto perto da escada que dava para o campanário. Por que lhe prendeu a atenção não sabia dizer, mas algo nos seus contornos enviou uma mensagem ao seu inconsciente. Caminhando na sua direcção, e afastando as teias dependuradas enquanto avançava, começou a discernir algo de terrível. Mão e lenço de bolso depressa revelaram a verdade, e Blake sobressaltou-se numa desconcertante mistura de emoções. Era um esqueleto humano, e deveria aí ter estado desde há muito tempo. A roupa estava feita em farrapos, mas alguns botões e fragmentos de roupa revelaram um fato cinzento de homem. Havia ainda outras provas — sapatos, fivelas de metal, enormes botões de punhos de camisa, um alfinete de gravata de modelo antiquado, um distintivo de repórter com o nome do velho Providence Telegram, e um pequeno bloco de notas com uma capa de cabedal já gasto. Blake examinou este último com cuidado, encontrando lá dentro várias notas de uma emissão já muito antiga, um calendário publicitário de celulóide, de 1893, alguns cartões de visita com o nome «Edwin M. Lillibridge», e um papel coberto de memorandos escritos a lápis. Este papel era de uma natureza assaz intrincada, e Blake leu-o cuidadosamente, à luz fraca da janela virada a oeste. O seu texto desconexo incluía frases como as seguintes:

«Prof. Enoch Bowen regressa do Egipto Maio de 1844 — compra velha Igreja do Livre Arbítrio em Julho — os seus bem conhecidos trabalhos arqueológicos e estudos do oculto.» «Dr. Drowne da 4ª Igreja Batista adverte contra Sabedoria Estelar com sermão, 29 de Dez. de 1844.» «Congregação 97 em finais de 45.» «1846 — 3 desaparecimentos — primeira menção do Trapezoedro Bri-lhante.» «7 desaparecimentos em 1848 — começam histórias de sacrifícios de sangue.» «Investigação de 1853 dá em nada — histórias de sons.» «Padre O’Malley fala de adoração ao diabo com caixa encontrada nas grandes ruínas egípcias — diz que invocaram algo que não pode existir na luz. Foge da luz fraca, e é banido pela luz forte. Depois tem de ser invocado de novo. Provavelmente soube-o através da confissão de Francis X no leito de morte. Feeney, que ingressou na Sabedoria Estelar em 49. Estas pessoas dizem que o Trapezoedro Brilhante lhes mostrou o céu e outros mundos, e que o Aventesma do Escuro lhes diz segredos de certa maneira.» «História de Orrin B. Eddy, 1857. Eles invocam-no ao perscrutar o cristal, e têm uma linguagem secreta própria.» «200 ou mais na congregação em 1863, sem contar com os homens na Frente.» «Rapazes irlandeses atacam igreja em 1869 depois do desaparecimento de Patrick Regan.» «Artigo velado em J., 14 de Março de 72, mas as pessoas não falam disso.» «6 desaparecimentos em 1876 — comité secreto chama Presidente da Câmara Doyle.» «Acção prometida, Fev. de 1877 — igreja fecha em Abril.» «Súcia — Rapazes de Federal Hill — ameaçam Dr.— e membros do Conselho Paroquial em Maio.» «181 pessoas deixam a cidade antes do fim de 77 — sem mencionar nomes.» «Histórias de fantasmas começam por volta de 1880 — tentar descobrir a verdade do relatório de que nenhum ser humano entrou na igreja desde 1877.» «Pedir a Laningan fotografia do local tirada em 1851.»…

Voltando a introduzir o papel no bloco de notas e pondo este último no seu casaco, Blake voltou-se para examinar o esqueleto coberto de pó. As implicações dessas notas eram claras, e não havia dúvida de que esse homem viera ao edifício abandonado há quarenta e dois anos, em busca de uma sensacional notícia de jornal, como ninguém tinha sido, antes, suficientemente corajoso para o fazer. Talvez ninguém soubesse do seu plano — quem o poderia dizer? O que é facto é que nunca regressou à redacção do seu jornal. Tê-lo-ia subjugado algum forte medo contido, capaz de lhe provocar uma repentina falha cardíaca? Blake inclinou-se sobre os ossos reluzentes e reparou no seu estado peculiar. Alguns deles estavam dispersos, e outros pareciam estranhamente dissolvidos nas extremidades. Outros eram estranhamente amarelados, com vagos indícios de queimaduras. Estas estendiam-se a alguns fragmentos de roupa. A caveira encontrava-se num estado assaz peculiar — manchada de amarelo, e com uma abertura carbonizada no topo, como se algum ácido poderoso a tivesse corroído através do osso sólido. Blake não conseguia imaginar o que acontecera ao esqueleto durante as quatro décadas nesse sepulcro silencioso. Antes de se ter apercebido, estava a olhar de novo para a pedra, e a deixar a sua curiosa influência trazer à sua mente um nebuloso aparato. Via procissões de figuras paramentadas e encapuçadas, cujos contornos não eram humanos, e contemplava infindas léguas de deserto alinhadas com monólitos esculpidos que pareciam chegar ao céu. Via torres e muralhas nas profundezas escuras do mar, e vórtices de espaço, onde pedaços de névoa negra flutuavam ante o ténue tremeluzir da fria bruma purpúrea. E para além de tudo isso, entrevia um abismo infinito de trevas, onde formas sólidas e semi-sólidas apenas se apercebiam através das suas agitações ruidosas, e onde toldadas formas de força pareciam sobrepor a ordem ao caos e oferecer a chave para todos os paradoxos e arcanos dos mundos que conhecemos. Depois, subitamente, o feitiço foi quebrado por um acesso de pânico torturante e indeterminado. Blake ficou atónito e afastou-se da pedra, cônscio de alguma incorpórea presença alienígena perto dele, observando-o com horríveis intenções. Sentiu-se preso a algo — algo que não estava na pedra, mas que olhara para ele através dela — algo que o iria seguir ininterruptamente, com uma visão não física. Na verdade, aquele lugar começava a irritá-lo — sobretudo após a arrepiante descoberta que fez. A claridade estava também a desaparecer, e uma vez que não possuía nenhum tipo de iluminação, sabia que teria de se retirar em breve. Foi então que, com o adensar do crepúsculo, ele julgou ter visto um indistinto sinal de luz na pedra desmesuradamente angular. Tentara desviar o olhar dela, mas alguma compulsão obscura atraíra de novo os seus olhos. Haveria nela alguma subtil fosforescência de radioactividade? O que diziam as anotações do defunto sobre um tal Trapezoedro Brilhante? Que era, afinal, este antro abandonado de um mal cósmico? Que acontecera aí, e o que é que poderia continuar a espreitar nas sombras que os pássaros evitavam? Parecia agora como que se um elusivo fedor se tivesse levantado por perto, embora a sua origem não fosse óbvia. Blake agarrou a tampa da caixa aberta e fechou-a. Esta moveu-se facilmente nas suas estranhas dobradiças, e fechou-se completamente sobre a pedra indubitavelmente reluzente. No agudo estalo do fechar da caixa, um leve som de agitação pareceu vir da eterna escuridão do topo do campanário, do outro lado do alçapão. Ratazanas, sem dúvida — as únicas coisas vivas a revelarem a sua presença nesse antro execrável, desde que ele ali entrara. E, no entanto, essa agitação no campanário assustou–o terrivelmente, o que fez com que mergulhasse quase descontroladamente pelas escadas helicoidais abaixo, através da nave macabra, para o interior da cave abobadada, saindo depois para o meio do crescente crepúsculo do largo despovoado, e descendo através das numerosas ruas e avenidas de Federal Hill, assombradas pelo medo, em direcção às sadias ruas centrais e aos familiares passeios de calçada da zona da Universidade. Durante os dias que se seguiram, Blake não contou a ninguém a sua expedição. Em vez disso leu bastante em determinados livros, examinou documentos de jornais de há muitos anos, e trabalhou febrilmente no criptograma que encontrara no volume de couro que estava na sacristia cheia de teias de aranha. Em breve se deu conta de que a decifração não seria simples, e, após um longo período de esforço, teve a certeza que a língua não podia ser o inglês, o latim, o grego, o francês, o espanhol, o italiano nem o alemão. Evidentemente, ele teria que recorrer aos mais profundos poços da sua estranha erudição. Todas as tardes lhe sobrevinha o velho impulso de olhar em direcção a oeste, e ele via o negro campanário, como dantes, entre os eriçados telhados de um mundo distante e semi-fabuloso. Mas agora este nutria, para ele, uma recente impressão de terror. Sabia do legado de conhecimento maléfico que lá se escondia, e sabendo disso a sua visão enredou-se por novos caminhos esquisitos. Os pássaros da Primavera estavam a voltar, e, ao olhar os seus voos ao pôr-do-sol, imaginava que eles evitavam o lúgubre pináculo desabitado como nunca antes o tinham feito. Quando um bando de pássaros se aproximasse dele, pensou, eles revoluteariam e dispersar-se-iam numa aterrorizada confusão — e isso podia adivinhar através do louco chilrear que chegaria até ele através dos quilómetros intermediários. Foi em Junho que o diário de Blake registou a sua vitória sobre o criptograma. Descobriu que o texto estava na obscura língua aclo, usada por certos cultos de maléfica antiguidade, e conhecida por ele, não fluentemente, através de pesquisas prévias. O diário é estranhamente reticente no que respeita ao que Blake conseguiu decifrar, pelo que ficou manifestamente receoso e desconcertado com os seus resultados. Contém referências a um Aventesma do Escuro, despertado através da contemplação do Trapezoedro Brilhante, e a conjecturas insanas sobre os negros abismos de caos, dos quais era invocado. Fala da criatura como retentor de todo o conhecimento, e de algo que exige monstruosos sacrifícios. Algumas das entradas de Blake revelavam medo, receando que a coisa, que ele parecia considerar já invocada, se libertasse; embora acrescente que as luzes da rua formam um baluarte que não pode ser transposto. Menciona o Trapezoedro Brilhante frequentemente, chamando-lhe uma janela de todo o tempo e espaço, e seguindo a sua história desde os dias em que fora criado no obscuro Yuggoth25, mesmo antes dos Anciães o terem trazido para a Terra. Foi venerado e colocado numa curiosa caixa pelas criaturas crinóides da Antárctica, salvo das suas ruínas pelos homens-serpente da Valúsia26, e examinado, mais tarde, durante eternidades, em Lemúria27, pelos primeiros seres humanos. Atravessou estranhas terras e mares ainda mais estranhos, e afundou-se com a Atlântida, até que um pescador minóico o apanhou com a sua rede e o vendeu a mercadores de pele morena, provenientes do escuro Khem28. O faraó Nephren-Ka construiu em torno dele um templo com uma cripta sem janelas, ocasionando assim que o seu nome fosse apagado de todos os monumentos e registos. Depois, repousou nas ruínas desse maléfico templo que os padres e o novo faraó destruíram, até ter sido de novo trazido para amaldiçoar a espécie humana. Nos princípios de Junho, os jornais completaram, de uma forma estranha, as entradas de Blake, contudo, de um modo tão lacónico e casual, que apenas o diário acabou por chamar a atenção geral para essa contribuição. Parecia que um medo recente tinha estado a crescer, em Federal Hill, desde que um estranho entrara na temida igreja. Os italianos segredavam acerca de uns ruídos invulgares no hermético campanário escuro, e chamaram padres para afugentar a entidade que assombrava os seus sonhos. Alguma coisa, disseram, estava constantemente a observar a porta, para ver se estava suficientemente escuro para se poder aventurar. Notícias da imprensa mencionaram as superstições locais de longa data, mas falharam em esclarecer-nos bem sobre os antecedentes desse horror. É óbvio que os jovens repórteres de hoje não são nenhuns estudiosos da Antiguidade. Ao escrever sobre estas coisas no seu diário, Blake exprimiu um curioso tipo de remorso, e fala do dever de enterrar o Trapezoedro Brilhante e banir o que ele tinha evocado, ao deixar que a luz do dia penetrasse no interior do medonho pináculo. Porém, ele expõe, ao mesmo tempo, a perigosa extensão da sua fascinação, e admite um anseio mórbido — que se infiltrava até mesmo nos seus sonhos —, o de visitar a torre execrável e contemplar, outra vez, os segredos cósmicos da pedra reluzente. Depois, algo no Journal29, na manhã de 17 de Julho, lançou o escritor do diário numa autêntica febre de horror. Foi apenas uma variante das outras notícias semi-humorísticas sobre a inquietude de Federal Hill, mas, seja como for, para Blake foi deveras terrível. Durante a noite, uma trovoada pusera o sistema de iluminação da cidade fora de funcionamento por uma hora, e, nesse escuro intervalo, os italianos quase enlouqueceram de medo. Aqueles que moravam perto da igreja medonha juraram que a criatura do campanário tirara partido da falta de luz nas ruas e descera para a parte principal da igreja, saltando e cambaleando, de uma forma inteiramente perversa e medonha. Segundo aqueles, cambaleara até à torre, onde havia sons de vidro a serem partidos. Podia ir até onde as trevas se estendiam, mas a luz afugentá-la-ia sempre. Quando a corrente surgiu de novo, dera-se uma chocante agitação na torre, pois mesmo a ténue luz que passava através das janelas com persianas cheias de fuligem negra era demasiada para a criatura. Cambaleara e arrastara-se mesmo a tempo para o seu campanário tenebroso — pois uma maior quantidade de luz tê-lo-ia enviado de volta para o abismo de onde aquele estranho louco o invocara. Durante essa hora escura, a multidão agrupara-se para rezar em torno da igreja, à chuva, com velas acesas e lâmpadas, de algum modo protegidas com papel, e guarda-chuvas — uma sentinela de luz, para salvar a cidade do pesadelo que espreita das trevas. Uma vez que, declararam aqueles que mais próximo da igreja habitavam, a porta principal rangera ameaçadoramente. Mas isso não era, sequer, o pior. Naquela tarde Blake leu, no Bulletin, sobre o que os repórteres tinham encontrado. Excitados, por fim, pela força sensacionalista das notícias sobre o susto, dois deles opuseram-se à frenética multidão de italianos e arrastaram-se até ao interior da igreja, através da janela da cave, depois de terem tentado as portas, em vão. Encontraram o pó do vestíbulo e da nave espectral sulcado de um modo singular, com buracos nas almofadas apodrecidas e os forros de cetim dos bancos espalhados curiosamente. Havia um mau cheiro por todo o lado, e, aqui e ali, viam-se bocados de tinta amarela e restos do que parecia ser carvão. Abrindo a porta da torre, e parando um momento devido à suspeita de um som que parecia arranhar, mais acima, encontram a estreita escada espiralada bruscamente varrida. Na própria torre, encontrava-se algo similarmente meio remexido. Referiam-se ao heptagonal pilar de pedra, à escada gótica curva, e às bizarras imagens de gesso; embora, curiosamente, a caixa de metal e o velho esqueleto mutilado não fossem mencionados. O que mais perturbou Blake — à excepção das sugestões de tinta e de carvão e dos maus cheiros — foi o detalhe final, que explicava o vidro partido. Cada uma das janelas ogivais da torre se encontrava partida, e duas delas tinham sido tapadas, de um modo imperfeito e apressado, com o forro de cetim dos bancos e com as almofadas de crina de cavalo colocados nos espaços entre as persianas enviesadas para o exterior. Muitos mais fragmentos de cetim e montes de crina de cavalo estavam espalhados pelo chão recentemente perturbado, como se alguém tivesse sido interrompido na tentativa de restaurar a torre ao absoluto negro dos seus dias hermeticamente velados. Manchas amareladas e restos carbonizados foram encontrados na escada que dava para o pináculo sem janelas, mas quando um repórter subiu, abriu o alçapão horizontal, de correr, e apontou um ténue raio de luz ao espaço escuro e estranhamente fétido, não viu nada senão trevas e uma desordem heterogénea de fragmentos de difícil distinção, perto da entrada. O veredicto, claro, foi charlatanice. Alguém tinha pregado uma partida àqueles supersticiosos residentes da colina, ou então algum fanático empenhara-se em aumentar os seus medos, para o suposto bem deles. Ou, possivelmente, algum dos mais novos e sofisticados habitantes encenara uma elaborada patranha para aquela gente. Houve um irónico desfecho após a Polícia ter enviado um agente para verificar o conteúdo das notícias. Três homens encontraram, consecutivamente, maneira de escapar à tarefa, e o quarto foi bastante relutante e regressou logo, sem acrescentar ao relato o que os repórteres tinham investigado. Desde essa altura, o diário de Blake mostrava uma crescente maré de horror insidioso e apreensão nervosa. Censurou-se a si próprio por não fazer nada, e especula bastante sobre as consequências de um outro corte de electricidade. Veio a verificar-se que, em três ocasiões — durante as trovoadas — telefonara para a companhia de electricidade num estado de grande nervosismo, pedindo que fossem tomadas precauções imediatas caso se desse uma quebra de electricidade. De vez em quando, as suas entradas revelavam constrangimento, devido à falha dos repórteres em encontrarem a caixa de metal e a pedra, e o velho esqueleto estranhamente deteriorado, ao explorarem a umbrosa sala da torre. Presumiu que essas coisas tivessem sido removidas — para onde e por quem, ou pelo quê, apenas podia supor. Mas os seus maiores medos constrangiam-no, assim como a ligação sacrílega que ele sentiu existir entre a sua mente e aquele horror latente no distante campanário — aquela monstruosa coisa nocturna, que a sua imprudência invocara dos irrevogáveis espaços negros. Pareceu sentir uma constante tortura da sua vontade, e os que o visitaram nesse período recordam como ele se sentava muito absorto à sua secretária e fixava, através da janela virada a oeste, aquele longínquo outeiro com o pináculo eriçado, para lá das volutas de fumo da cidade. As suas entradas assentam, invariavelmente, em certos sonhos terríveis, e na persistência daquela sacrílega ligação, durante o sono. Mencionam mesmo uma noite em que acordou e deu por si completamente vestido, na rua, e caminhando automaticamente, pela College Hill, em direcção a Oeste. Muitas vezes ele insiste no facto de que a criatura do campanário sabe onde encontrá-lo. A semana a seguir a 30 de Julho é recordada como o esgotamento parcial de Blake. Não se vestia, e encomendava toda a sua comida por telefone. Os que o visitavam reparavam nas cordas que ele mantinha perto da cama, e ele disse que o sonambulismo o tinha forçado a atar o pé com nós, todas as noites, o que iria, provavelmente, retê-lo, ou acordá-lo, na dificuldade de se desatar. No seu diário fala-nos da terrível experiência que o levou ao colapso. Depois de se ter retirado, na noite do dia 30, viu-se, de repente, tacteando num espaço quase escuro. Tudo o que conseguia ver eram curtas e ténues camadas horizontais de luz azulada, e podia sentir um fedor excessivo e ouvir uma curiosa mistura de suaves sons furtivos por cima dele. Sempre que se mexia, tropeçava em alguma coisa, e, a cada barulho, lá vinha de cima uma espécie de som que parecia ripostar — uma vaga agitação, misturada com um cauteloso deslizar de madeira sobre madeira. Uma vez, as suas mãos tacteantes encontraram um pilar de pedra, com o topo vazio, enquanto que, mais tarde, viu-se agarrado aos degraus de uma escada, construída na parede, atrapalhando-se a subi-la em direcção a uma região de fedor ainda mais intenso, onde uma rajada de ar quente, crestante, se abatia contra ele. Perante os seus olhos movia-se uma série caleidoscópica de imagens fantasmais, todas elas se dissolvendo em intervalos, para dentro da imagem de um vasto, insondável abismo de treva, em que rodopiavam sóis e mundos de um ainda mais profundo negrume. Pensou nas antigas lendas do Derradeiro Caos, em cujo centro se espreguiça o deus cego e idiota, Azathoth, Senhor de Todas as Coisas, rodeado pelas suas hordas saltitantes de dançarinos estúpidos e amorfos, embalados pelo fino e monótono som de uma flauta demoníaca, tocada por patas execrandas. Depois, um barulho cortante vindo do mundo exterior irrompeu através do seu torpor e ergueu-o do inexprimível horror desse seu estado. O que aquilo era, nunca o soube — talvez algum estalar de fogos-de-artifício ouvidos todo o Verão, em Federal Hill, dado que os habitantes festejam os seus vários santos padroeiros, ou os santos das suas aldeias nativas, na Itália. Fosse o que fosse, ele gritou, desceu freneticamente da escada, e tropeçou às cegas, através do chão obstruído das divisões sombrias que o rodeavam. Viu, imediatamente, onde estava, e precipitou-se imprudentemente pela estreita escada helicoidal abaixo, atrapalhando-se e magoando-se a cada movimento. Houve um terrível voo de pesadelo através de uma vasta nave com teias de aranha, cujas arcadas fantasmagóricas alcançavam reinos de sombra mal–intencionada, um debate às cegas através de uma cave desarrumada, uma subida para as regiões ao ar livre e para as luzes da rua, e uma corrida desvairada pela espectral colina abaixo cheia de mansardas balbuciantes, através de uma severa cidade silenciosa de altas torres negras, e pelo íngreme precipício acima, a leste, até à sua própria porta. Ao voltar a si, já de manhã, viu-se deitado no chão do seu estúdio, completamente vestido. Sujidade e teias de aranha cobriam-no, e cada centímetro do seu corpo lhe parecia dorido e ferido. Quando se olhou ao espelho, reparou que o seu cabelo estava bastante chamuscado, enquanto que um vestígio de um estranho odor maléfico parecia emanar da superfície da sua roupa. Foi então que os seus nervos sucumbiram. Depois disso, recostando-se exausto, em roupão, fez pouco mais do que olhar pela janela, para oeste, arrepiando-se com o som ameaçador dos trovões, escrevendo frenéticas entradas no seu diário. A grande tempestade rebentou mesmo antes da meia-noite de 8 de Agosto. Os raios atingiam, repetidamente, todos os sítios da cidade, e duas extraordinárias explosões foram registadas. A chuva foi torrencial, enquanto que constantes séries de trovões causaram insónias a milhares. Blake estava completamente desesperado de medo devido ao sistema de iluminação, e tentou telefonar para a companhia por volta da uma da manhã, embora, por essa altura, o serviço tivesse sido temporariamente cortado por razões de segurança. Registou tudo no seu diário — com grandes hieróglifos nervosos, e muitas vezes indecifráveis, relatando a sua própria história de frenesi e desespero, e de entradas gatafunhadas cegamente, às escuras. Teve de manter as luzes de casa apagadas, para poder ver para o exterior, e parecia que a maior parte do seu tempo o passava sentado à secretária, espreitandoansiosamente através da chuva, através dos reluzentes quilómetros de telhados da Baixa, na constelação de luzes distantes que assinalava Federal Hill. De vez em quando escrevinhava uma entrada, desajeitadamente, no seu diário, pelo que frases como «As luzes não poderão extinguir-se», «Aquilo sabe onde estou», «Tenho de destruí-la» e «Está a chamar-me, mas talvez isso não signifique nenhum mal desta vez» se encontravam espalhadas em duas das folhas. Depois a luz faltou em toda a cidade. Aconteceu por volta das duas e doze da manhã, segundo os registos da central eléctrica, mas o diário de Blake não oferece nenhuma indicação sobre a hora. Na entrada lemos apenas «Faltou a luz — Deus me ajude.» Em Federal Hill havia observadores tão ansiosos quanto ele, e grupos de homens ensopados pela chuva, reunidos no largo e nas ruas em torno da igreja maléfica, com velas protegidas pelos guarda-chuvas, lanternas eléctricas, candeeiros a petróleo, crucifixos, e obscuros amuletos de vários tipos, comuns no Sul de Itália. Benziam cada raio de luz, e faziam obscuros sinais temerosos com a mão direita, quando, a uma certa altura da tempestade, as luzes diminuíram e, finalmente, se apagaram todas. Uma rajada de vento apagou quase todas as velas, o que fez com que o cenário se tornasse ameaçadoramente escuro. Alguém foi acordar o Padre Merluzzo da Igreja do Espírito Santo, e ele apressou-se até ao largo sombrio, para pronunciar quaisquer sílabas que pudessem ajudar. Dos sons agitados e curiosos na torre enegrecida, não restavam quaisquer dúvidas. Do que aconteceu às duas horas e trinta e cinco temos o testemunho do padre, uma pessoa jovem, inteligente e bem-educada; do polícia William J. Monahan, da Estação Central, um agente da mais alta confiança, que tinha parado naquela altura da sua ronda para inspeccionar a multidão; e de mais setenta e oito homens que estavam reunidos em torno do alto muro que circundava a igreja — especialmente daqueles que se encontravam no largo, de onde a parte leste da fachada era visível. Claro que não havia nada que se pudesse provar como sendo estranho à ordem da Natureza. As causas possíveis do sucedido são muitas. Ninguém poderá falar com absoluta certeza dos obscuros processos químicos desencadeados num vasto e antigo edifício de atmosfera doentia, e há muito abandonado, repleto dos mais variados conteúdos. Vapores mefíticos — combustão espontânea — compressão de gases resultantes de uma longa putrefacção — quaisquer dos inúmeros fenómenos poderão ser responsáveis. E depois, claro, não poderá de modo algum ser excluído o factor de uma deliberada charlatanice. A coisa em si era bastante simples, e levou menos do que três minutos do tempo real. O Padre Merluzzo, um homem sempre meticuloso, olhava para o seu relógio repetidamente. Começou com um definido aumento do vascolejar de vagos sons, dentro da torre negra. Por momentos ocorreu uma vaga exalação de um estranho odor maléfico vindo da igreja, que então se tornara explícito e repulsivo. Depois, por fim, ouviu-se um som de madeira a rachar, e um grande objecto pesado despenhou-se no pátio, abaixo da carrancuda fachada leste. A torre não se via, agora que as velas estavam apagadas, mas à medida que o objecto se aproximava do solo, as pessoas sabiam que se tratava da persiana fuliginosa da janela leste da torre. Imediatamente a seguir, um fedor completamente insuportável irrompeu directamente das imperceptíveis alturas, chocando e enojando os observadores temerosos, e quase fazendo cair os que se encontravam no largo. Nesse mesmo momento o ar tremeu, numa vibração semelhante ao bater de asas, e uma repentina baforada vinda de leste, mais forte do que alguma das prévias, arrebatou os chapéus e danificou os guarda-chuvas molhados da população. Nada de definido podia ser visto nessa noite sem nenhuma iluminação, contudo alguns espectadores, que olhavam para cima, julgaram ter entrevisto uma grande névoa dispersa, do mais denso negrume, contra o céu de cerrada escuridão — algo como uma nuvem de fumo, informe, projectada com uma velocidade comparável à de um meteoro, em direcção a Leste. E foi tudo. Os observadores estavam meio paralisados de medo, com receio e mal-estar, e mal sabiam o que fazer, ou se deviam sequer fazer alguma coisa. Sem saberem o que se tinha passado, não abandonariam a sua vigília; e logo a seguir enviaram uma prece aos céus, assim que um impetuoso clarão de um demoradorelâmpago, seguido de um ribombar estridente, rompeu o inundado firmamento. Meia hora depois a chuva parou, e, após quinze minutos mais, as luzes eléctricas acenderam-se de novo, fazendo com que os observadores, cansados e sujos de lama, voltassem, descansadamente, para os seus lares. Os jornais do dia seguinte deram pouca importância ao assunto, em relação à generalidade das reportagens sobre tempestades. Parece que o grande clarão do relâmpago e a sua explosão ensurdecedora, que fizeram parte da ocorrência de Federal Hill, foram ainda mais tremendos lá para Leste, onde a irrupção do peculiar fedor também se fez notar. O fenómeno sentiu-se mais em College Hill, onde o estrondo acordou todos os habitantes que dormiam, conduzindo a uma série de especulações desorientadas. Daqueles que já estavam acordados, apenas alguns viram o anómalo clarão perto do cume do monte, ou deram conta da inexplicável rajada de ar ascendente que quase desfolhou as árvores e que destruiu as plantas dos jardins. Estava decidido que o repentino raio isolado tivesse caído algures nas redondezas, porém não se encontraram vestígios de tal acontecimento. Um jovem da república de estudantes Tau Ómega, julgou ter visto uma grotesca e hedionda massa de fumo no ar, logo após ter ocorrido o clarão, mas a observação deste não chegou a ser comprovada. Dos poucos observadores todos concordaram porém com a ocorrência da violenta rajada vinda de Oeste e com a invasão do cheiro insuportável que precedeu esse demorado relâmpago. As provas relativas ao momentâneo cheiro a queimado, logo após a colisão, eram igualmente gerais. Estes pontos foram cuidadosamente discutidos devido à sua provável relação com a morte de Robert Blake. Os estudantes da república Psi Delta, cuja janela mais alta das traseiras dava para o estúdio de Blake, repararam na cara branca e manchada, que estava à janela virada a oeste, na manhã do dia nove, e perguntaram-se sobre o que havia de errado com a sua expressão. Quando viram a mesma cara na mesma posição à tarde, sentiram-se preocupados, e esperaram que as luzes se acendessem no seu apartamento. Mais tarde tocaram à campainha do andar escurecido, e, por fim, veio um polícia forçar a porta. O corpo, rígido, encontrava-se sentado, completamento hirto, à secretária, em frente à janela, e quando os intrusos viram os vítreos olhos esbugalhados, e as marcas de puro medo convulsivo na face contorcida, desviaram o olhar, consternados e agoniados. Pouco depois, o médico legista analisou o caso, e, apesar da janela estar intacta, diagnosticou choque eléctrico, ou tensão nervosa induzida por descarga eléctrica, como causa de morte. Quanto à hedionda expressão ignorou-a totalmente, acreditando tratar-se do resultado nada improvável do choque profundo

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