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O Maravilhoso Mundo de Midkemia de Raymond E. Feist

Venha conhecer o mundo de fantasia criado por Raymond E. Feist na série Mago e descubra o segredo do sucesso da série de Feist, que a fez atravessar três décadas e ainda atrair leitores hoje em dia.

Ilustração de Martin Deschambault
 

Nos últimos anos, as editoras brasileiras têm corrido atrás do seu histórico atraso em relação aos clássicos da literatura fantástica. Por isso, autores como Howard, Lovecraft e Dunsany apareceram nas prateleiras, A companhia negra de Glen Cook finalmente teve uma edição nacional e, impulsionado pela série da HBO, George R. R. Martin se tornou um fenômeno de vendas no país. A obra de J. R. R. Tolkien tem sido constantemente reeditada, com edições especiais em lançamento simultâneo com o resto do mundo. Porém, ainda faltam muitas obras, séries completas que estão longe do público. Com a chegada de Mago Aprendiz a Saída de Emergência estreia no Brasil preenchendo uma grande lacuna.

À primeira vista, Midkemia pode parecer com um mundo como aqueles que estamos familiarizados a ver em leituras e filmes. A vida é dura para os camponeses e servos, nobres disputam o poder – às vezes na ponta de uma espada – elfos vivem semi-isolados nas florestas e anões exploram minas. Toda essa sensação de paz se quebra quando Pug, o aprendiz de mago de Crydee, e seu amigo Tomas, um jovem soldado, encontram um estranho navio naufragado. Sem saber, os dois revelam um plano de invasão que irá colocar todo o seu mundo em perigo e começar a terrível Guerra do Portal.

É assim que começa uma das mais importantes séries da literatura fantástica mundial. Com vinte e cinco livros lançados (e alguns contos e histórias curtas), Raymond E. Feist tornou-se um dos escritores mais vendidos do gênero contando as desventuras dos dois amigos em meio ao turbilhão que muda todo o seu planeta. Participam de batalhas épicas e encontram estranhas criaturas, ao mesmo tempo em que procuram desvendar o mistério que trouxe os tsurunai ao seu mundo. A série, chamada de Riftwar Cycle – (Ciclo da Guerra do Portal), foi encerrada em 2013 com o lançamento mundial de Magician’s End, fechando um ciclo de três décadas de mais de 15 milhões de exemplares vendidos.

Pode parecer impossível, mas todo esse sucesso começou por acaso. Raymond E. Feist, filho adotivo do produtor de cinema Felix Feist, criou o seu universo como cenário para os jogos de RPG (Role Playing Games) de seu grupo de amigos na faculdade, ainda na década de 1970. Inspirado pelas aventuras dos personagens e pelo universo que os envolvia, começou a rascunhar o seu primeiro romance no começo da década de 1980.

Foi só em 1982 que publicou seu primeiro livro, Magician, que conta o começo da Guerra da Brecha. O romance tornou-se um sucesso de vendas, ganhou três sequências diretas (Silverthorn, A Darkness at Sethanon e Magician’s End) e deu origem a todo um ciclo de histórias, espalhadas por livros, quadrinhos e jogos para computador.

Raymond E. Feist foi tão bem sucedido que, no décimo aniversário da publicação de ‘Magician’, lançou uma edição especial, dividindo o livro em dois com – muito – material extra. E é essa a edição, a preferida do autor, que é lançada pela Saída de Emergência como ‘Mago: Aprendiz’ e ‘Mago: Mestre’.

O segredo do sucesso

O segredo do sucesso da série de Feist, que a fez atravessar três décadas e ainda atrair leitores hoje em dia, parece simples. Os livros combinam uma trama envolvente, bem detalhada e construída, com um cenário coerente que, ao mesmo tempo que nos é conhecido, guarda muitas novidades e surpresas. Mas talvez seu grande trunfo sejam os personagens. Seja na cidadela de Crydee, na cidade de Krondor, nos campos de escravos de Kelewan ou atravessando as minas de Mac Mordain Cadal, são eles que nos pegam pela mão e fazem a história acontecer ao seu redor. Suas emoções e problemas são reais, convincentes e suas personalidades são muito humanas, mesmo quando estamos falando de seres de outros mundos. São sempre personagens carismáticos, protagonistas ou não, que transitam com falhas e qualidades. Mesmo entre os inimigos, os tsurani, é possível encontrar pontos de identificação.

Acompanhamos esses personagens no desenrolar da guerra que se aproxima. Com eles, vamos conhecendo a estranha raça dos tsurani, alienígena em um mundo que convive com trolls, goblins e kobolds. Descobrimos as terríveis brechas e seu poder de desafiar o tempo e o espaço (o que dá um gostinho de Ficção Científica à saga, já que é comum nesse gênero as histórias sobre os contatos, nem sempre pacíficos, entre duas raças de planetas diferentes).

Um mundo rico e complexo

A história começa em Crydee, mas logo se espalha por toda a Midkemia e chega a Kelewan, não só nos dois primeiros livros, mas na grande série que se sucede. Há vários lugares de interesse:

Crydee: A cidade de Crydee é sede do ducado de mesmo nome. É um posto avançado do Reino das Ilhas, no seu extremo oeste, na costa do Mar Sem Fim. Foi em suas praias que Tomas e Pug descobriram o naufrágio de um navio desconhecido.

Elvandar: A principal cidade élfica fica escondida no meio do Coração Verde, a grande floresta ao norte do continente de Triagia. Totalmente composta por árvores gigantescas ligadas por pontes verdes, é protegida de invasores por encantamentos e criaturas como dríades, lobos e ursos.

Ilha do Feiticeiro: Já foi conhecida como ‘Insula Beata’, porém depois que o mago Macros, o Negro, fugiu para lá, os marinheiros passaram a evitá-la. Seus altos penhascos são encimados por um castelo, de cuja torre saem arcos de energia e ruídos medonhos. Nunca mais ninguém viu o feiticeiro ou sabe o seu destino, já que o único sinal de vida são os raios e uma única janela iluminada do castelo.

Krondor: a cidade na costa do Mar Amargo é a sede do ducado governado pelo Príncipe de Krondor, o herdeiro do Reino das Ilhas. Com isso, tornou-se uma das mais importantes cidades da parte oeste do reino, crescendo cada vez mais. O palácio, que fica no centro da parte murada, chama a atenção, pois fica no ponto mais alto da cidade.

Mac Mordain Cadal: a mina abandonada fica debaixo das montanhas conhecidas como Torres Cinzentas. Um grande rio subterrâneo percorre a mina, que se conecta com passagens ainda mais antigas e inexploradas. Poucos se aventuram a atravessá-las, já que são habitadas por criaturas terríveis. Quem se arrisca, dificilmente consegue sair.

 

Um clássico que não envelhece

Talvez depois de tudo isso ainda fique a pergunta “vale a pena ler um livro que saiu há mais de trinta anos?”.

O bom de um clássico é que ele não envelhece. Está sempre atual, sempre tem algo novo a dizer para uma nova geração de leitores. Atualmente, a série de Raymond E. Feist traz de volta uma fantasia mais aberta, em que magos fazem bolas de fogo, dragões falam e tesouros mágicos podem mudar a vida de alguém – para o bem ou para o mal. Além disso, Mago: Aprendiz e Mago: Mestre são livros que falam sobre crescimento, transformação e as dores da mudança, que sempre vêm com a idade. E Raymond E. Feist tratou desse tema com uma propriedade que fez seus livros ainda serem tão relevantes, mesmo trinta anos depois.

Curiosidades sobre a obra

Influências

Feist cita Robert Louis Stevenson, autor de A Ilha do Tesouro e Raptado, e Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros, como os escritores que mais tiveram influência literária sobre sua escrita e também sobre aspectos gerais de sua obra.

Betrayal at Krondor

Os leitores mais velhos talvez se lembrem de um primeiro contato do público brasileiro com o universo de Feist. Na década de 1990, circulou nas lojas do Brasil o RPG eletrônico ‘’Betrayal at Krondor”, o primeiro video game da saga. Pouco depois, foi distribuída a versão econômica em bancas de jornal e lojas de departamento de todo o país. Seguia o padrão típico da época, com jogo em 1ª pessoa e encontros randômicos pelo cenário. Talvez não impressione muito em tempos de ‘Mass Effect’ e ‘Dragon Age’, mas quando foi lançado, era topo de linha.

Os tsurani

A cultura dos tsurani foi inspirada, segundo o próprio Feist, nas culturas do Extremo Oriente, como a japonesa, a coreana e a chinesa. Por isso, tem códigos de honra e estruturas hierárquicas muito rígidas, bem mais do que em Midkemia, que segue mais o padrão da Europa Feudal/Renascentista. A intenção do autor era justamente mostrar esse choque entre culturas tão diferentes.

Os tsurani são a raça humana que habita o planeta de Kelewan, junto com outras, mais antigas e não-humanoídes. São mais baixos que os midkemianos, com maçãs do rosto mais altas. Uma das grandes diferenças entre as duas culturas é que os tsurani não usam metais em larga escala, já que é um material escasso em seu mundo. Para substituí-los, aprenderam a usar madeira endurecida com resina para fazerem armas, armaduras e outros utensílios.

Homenagem a Tolkien

Embora todos os livros de fantasia publicados depois de O Senhor dos Anéis, de Tolkien, sejam geralmente reconhecidos como seus devedores até certo ponto, Feist pegou emprestados, muito diretamente, elementos que remontam a culturas inteiras. Os elfos são descritos usando as palavras do próprio Tolkien, incluindo empréstimos de suas línguas élficas (por exemplo, moredhel, os nomes que Feist deu a seus “elfos negros”, é encontrado em Tolkien, e vem dos elementos Sindarin “mor” (negro) e “edhel” (elfo). A cidade élfica de Elvandar foi nitidamente baseada em Lothlórien, e Mac Mordain Cardal foi certamente influenciada por Moria.

Da terra para midkemia

Feist pegou emprestado e utilizou culturas ao longo da História para dar base a suas nações, países e povos, como as influências romanas na cultura de Queg, influências árabes na cultura keshiana, e influências asiáticas na cultura tsuraniana. A partir de referências, pode-se inferir também que Kinnoch sofreu influência irlandesa; Krondor, londrina; Darkmoor, alemã; Bas-Tyra, francesa; Novindus, indiana e australiana, e Rodez, espanhola.

  Onde descobrir mais sobre o autor: — midkemia.wikia.com — crydee.com

— elvandar.com

Publicado originalmente na Bang! Brasil 0
 

[author] [author_image timthumb=’on’]http://revistabang.com/files/2013/09/carica_anacris.jpg[/author_image] [author_info]Ana Cristina Rodrigues, 30 e mais alguns anos, é escritora, historiadora, editora, tradutora, professora e funcionária pública. Com vários contos publicados, tenta finalizar um romance. Tuita como @anadefinisterra e seu blog é http://talkativebookworm.wordpress.com [/author_info] [/author]

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