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Revista Bang!
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CHAMEMOS-LHE GEEKTOPIA

Quando a fantasia e a ficção científica se tornam monstros no armário, é preciso exorcizá-los. Até quando?

 

 

Falar de ficção fantástica em Portugal é falar de um nicho de mercado muitas vezes subestimado, mas ainda assim com uma oferta generosa face à procura. Existe público para todos os tipos de literatura e o público da ficção de género especulativa temgeek vindo a mostrar-se mais amplo ao longo dos anos, ou não estivéssemos a falar de uma amostra substancial dos chamados nerd ou geek, em tempos idos olhados com estranheza pelos grupos sociais e até etiquetados como os tradicionais “gordinhos” ou “caixa-de-óculos” que raramente andavam em grupo e mesmo quando produziam os seus círculos íntimos eram ostracizados pelos “núcleos fortes” da sociedade jovem.

Ora, os tempos mudaram, ser geek tornou-se viral e a tendência tornou-o o grupo predominante da sociedade jovem. Extrapolou-se para a sociedade adulta. Uma das características mais predominantes do mundo geek é não se restringir a classes etárias, até porque os nerds de outrora tornaram-se adultos e será impossível para eles virar as costas a essa natureza precisamente quando o mundo inteiro se abre a eles com um bilião de oportunidades, que não conheceram na sua adolescência.

Os anos 90 foram um embrião na disseminação desta cultura, com a explosão dos RPGs e a febre do Harry Potter, onde jogar com cartas caracterizadas e comentar os episódios de Dragon Ball e Pokemon eram atividades recorrentes dos grupos nerd nos intervalos escolares. E goste-se ou não, deve-se a Harry Potter parte da grande aceitação da sociedade a esta vertente social. O fenómeno abarcou o mundo inteiro e vigora ainda hoje como uma marca indelével desta cultura.

A adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis e do Universo Cinematográfico Marvel veio abrir horizontes e ampliar a tendência no novo século. Ser nerd tornou-se algo aliciante, tanto que o termo geek veio mitigar a carga negativa do termo, que se tornara um estereotipo de conotação negativa. As séries foram o passo seguinte. A Guerra dos Tronos veio mostrar ao mundo que a ficção especulativa está longe de se ficar pelo juvenil, pelo clean e pelo entretenimento, bem como a ideia de que ela traduz pouca necessidade de pensar se esbateu.

É num mundo de reality-shows comprados com facilidade pelo cidadão comum que a ficção especulativa mostra o quanto pode ser um bom entretenimento como pode também ensinar e ser sinónimo de intelectualidade. Conscientemente ou não, a Netflix pode muito bem ser a Academia filosófica do novo século. Porque é através dos artifícios, da movimentação de câmara e do chamariz dos efeitos especiais que mensagens subliminares são passadas, através de argumentos incríveis, exercícios mentais tão contundentes e ao fim e ao cabo tão similares a uma Alegoria da Caverna de Platão.

O mundo está aberto à cultura geek, mas nem tudo é cor-de-rosa. Ainda há um preconceito latente na sociedade que é testemunhado nos detalhes. As mentes menos argutas interpretam este mundo como objectificação de adolescentes, e mesmo no mundo literário os mais conservadores ainda têm dificuldade em admitir que clássicos distópicos como Admirável Mundo Novo ou 1984 são Ficção Científica e literatura de ficção especulativa.

Acaba por ser frustrante quando a cultura é recusada até por aqueles que a praticam, temendo ser prejudicados pelos rótulos das classes conservadoras. Falo por exemplo do Nobel da Literatura Kazuo Ishiguro, que escreve um livro de fantasia juvenil, O Gigante Enterrado, e afirma que não é fantasia uma vez que é uma metáfora sobre a condição humana, sobre a velhice e o saudosismo. Resta-me apenas perguntar, qual é a fantasia minimamente bem construída que não tem metáforas e mensagens subliminares?

A ficção especulativa é um tipo de arte que metamorfoseia mensagens sobre a natureza humana e as condições sociais, e nela podemos incluir com certeza as alegorias platónicas e as distopias clássicas.

Mesmo com o público de hoje, maioritariamente geek, há um qui pro quo. Se a massificação dos produtos de ficção especulativa vem aumentar este público e expandir a visibilidade das obras, vem também criar formas mais fáceis de se lhe aceder sem ter que puxar pela carteira ou pelos neurónios. Apesar de o público geek se ter ampliado em grandes proporções, o público leitor não aumentou em conformidade.

E, desta forma, a ficção especulativa em formato livro continua a ser um nicho de mercado. Pelo menos no nosso país, continua a medir-se por poucas editoras, por um punhado de blogues e por uma quantidade de leitores grande, mas que ainda assim não faz justiça nem ao trabalho realizado, nem ao mérito do mesmo. No que diz respeito a autores internacionais, a oferta é variada e bastante boa, não sendo a desejável acaba por ser tanta quanto as editoras mais entusiastas do género conseguem publicar, mesmo quando a resposta dos leitores fica abaixo das expectativas.

Quanto aos autores nacionais, não existe nenhum que consiga traduzir em sucesso o esforço do seu trabalho. Excluindo as vanity-press, cujos autores não podem ser considerados em qualidade, contam-se pelos dedos os escritores publicados em editoras ou reconhecidos pelo esforço, mas que não conseguem alcançar qualquer relevância em vendas. Mas deve-se a eles, aos livreiros, aos editores, aos blogues e ao público em geral, tanto a ficção especulativa que temos nas nossas livrarias, como as perspectivas de um futuro em que o mundo geek não se restrinja aos ecrãs de cinema e de televisão. Uma geektopia? Talvez. Ou talvez estejamos apenas no início.

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