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O TABULEIRO MALAZANO DE STEVEN ERIKSON PARTE II

"É na profundidade das relações, nas orelhas cortadas, no peso das histórias de vida e em pequenos pormenores como a verdadeira identidade de um macaquinho que se encontra a verdadeira riqueza deste livro."

O Apocalipse

Sha’ik é a profeta do Apocalipse, que move os seus exércitos ao longo do Império Malazano num conflito direto com a Imperatriz Laseen. Ela possui um livro que prevê o Apocalipse e faz mover uma enorme coluna de tempestade pelo Deserto do Raraku, preparando o evento conhecido como o Furacão. Só que, muito mais facilmente do que se presumia, Sha’ik é morta por uma flecha, o que vem instalar a dúvida nas multidões que a reverenciam.

 

Pouco a pouco, vem-se entendendo que a sua morte estava já prevista, e que a Sha’ik, senhora do Apocalipse que enfrentará Laseen será, na verdade, uma das personagens centrais do livro, que sofrerá gradualmente uma espécie de possessão, vindo a reencarnar na tão famosa profetisa, capaz de mover milhões contra a Imperatriz.

 

A Casa Paran

Ganoes Paran foi um dos protagonistas de Jardins da Lua, mas não dá a cara neste segundo volume. Já as suas irmãs juntam-se ao tabuleiro de jogo, e não com pouca importância. Tavore Paran tornou-se conselheira da Imperatriz, após o desaparecimento de Lorn no primeiro volume. E tornou-se assim uma inimiga visceral da sua irmã Felisin, que a odeia. A irmã mais nova de Ganoes é uma das protagonistas de Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos.

Ganoes Paran
Ganoes Paran por Drummond

A sua história inicia-se em Unta, com uma purga aristocrática que a conduz para as Minas de Otaratal, o minério conhecido por obliterar qualquer produção de magia, e lá torna-se dependente de uma droga chamada durhang. Torna-se também próxima de um velho historiador chamado Heboric Toque Leve, antigo sacerdote do deus javali Fener, e de um ladrão chamado Baudin. Na fuga das minas e na travessia das Sete Cidades, Felisin encontra desolação, trava conhecimento com um mago chamado Kulp e atravessa um labirinto Kurald Emurlahn, enfrentando insetos horripilantes, dragões zombies e coisas ainda mais avassaladoras.

 

 


A Corrente de Cães

Um dos núcleos mais emocionantes e desgastantes da obra é a famosa Corrente de Cães, nome dado à marcha levada pelo Punho Coltaine, o brilhante Comandante do Sétimo Exército Malazano, levando 50 mil refugiados aristocratas da invasão das Sete Cidades para o porto seguro malazano, a milhares de quilómetros de distância, atravessando todo o deserto e enfrentando inimigos por todos os lados. Duiker é o historiador que acompanha a marcha e regista todos os acontecimentos, sendo obrigado, no decorrer dos tempos, por se tornar ele mesmo um soldado.

 

O respeito entre patentes, entre seres humanos, os graus de degradação, as mortes de crianças, a fome, a desidratação e a doença são desoladores. Tribos hostis, exércitos inimigos e privações tornam-se companhias habituais durante a tentativa desesperada de escoltar os refugiados até Aren, à cidade mais próxima capaz de os albergar. O final desta história inclui também um pouco de magia, bem como uma referência mais do que casual à morte de Cristo.

As Pontas Que Se Tocam

Apesar de a grande maioria dos protagonistas não se cruzar sequer uns com os outros, há várias pontas que se tocam. Não só o Deserto do Raraku e a profecia do Apocalipse envolve todos os núcleos, como o ódio à Imperatriz Laseen, a instabilidade dos Ascendentes e o tal Caminho das Mãos que leva à Ascendência está também profundamente ligado a todos eles. As revelações finais, da identidade da Sha’ik renascida ao encontro tocante entre um historiador cego com as cruzes dos sacrificados, dão uma força terrível a este livro.

Há personagens secundárias que também se cruzam com mais do que um núcleo. Gesler, Tempestade e Vontade são três personagens muito bem construídas e com um papel capital em todas estas histórias. Espero ver muito mais deles nos próximos volumes, bem como de um toblakai aqui ainda sem nome que, disseram-me os passarinhos, se tornará um dos grandes protagonistas da Saga do Império Malazano. No próximo volume, Memórias do Gelo, voltaremos a encontrar velhos amigos de Jardins da Lua, como Whiskeyjack e Anomander Rake.

 

Deadhouse Gates, ou em bom português, Os Portões da Casa dos Mortos e O Caminho das Mãos, é um livro intenso, desgastante e profundo. Ele não te leva a afeiçoar com as personagens de pronto, mas a história deles é longa e dilacerante, e quando começas a criar empatia com elas, Steven Erikson começa a tirar-te. Não digo que morrem todos no final ou algo do género, mas as tragédias são mais que muitas e os encontros com dragões, fantasmas e pisos armadilhados são apenas barulho das luzes para dizermos que é uma saga de fantasia incrível.

É na profundidade das relações, nas orelhas cortadas, no peso das histórias de vida e em pequenos pormenores como a verdadeira identidade de um macaquinho que se encontra a verdadeira riqueza deste livro. Os Ascendentes estão mais próximos do que podíamos sequer calcular, nada é o que parece, e eles, com um senhor chamado Steven Erikson por trás, estão a fazer o seu jogo. A lançar os seus dados para o tabuleiro de jogo que é este Império Malazano.

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