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Ficções arquitectónicas: visões do passado, do futuro e mais além #1

Ficções arquitectónicas: visões do passado, do futuro e mais além #0: sugerir ligações e imagens com fundo ficcional mas de natureza arquitectónica ou urbana.

Coordenação de João Rosmaninho

As relações entre a ficção e a arquitectura parecem ser inevitáveis mas entre a ficção científica e a arquitectura parecem ser inevitavelmente loucas. Não tem mal! A loucura – quando por nós adoptada – pode admiravelmente ajudar-nos a compensar o dia-a-dia e a “fugir da rotina” (como dizem as palavras da Saída de Emergência).

Assim sendo, a proposta que esta rubrica tentará desenvolver nos próximos meses mais não é que sugerir ligações e imagens com fundo ficcional mas de natureza arquitectónica ou urbana. Conheceremos versões gráficas inéditas de obras maiores como “Lisboa no Ano 2000” de Melo de Matos (e já revisitada na antologia de João Barreiros) ou “Neuromancer” de William Gibson. Entraremos no universo fantástico de “Gormenghast”, de Mervyn Peake, ao mesmo tempo que viajaremos por estruturas lunares e outros lugares. Haverá fotografia, desenho e ilustração, como haverá passado e futuro em cada uma das visões pessoais que, por certo, aqui desfilarem. Está feito o convite… apareçam!

Lisboa no Ano 2000

Marta Machado

Para além de charneira temporal e social na evolução do modernismo, o período entre o final do século XIX e o início do século XX significa também o arranque e estabelecimento da ficção (científica) como hoje a conhecemos. Literária e tecnicamente, trata-se talvez da charneira entre uma civilização pré e pós-industrial, originando dois quotidianos simultâneos embora muito diferentes.

O ritmo com que novas tecnologias se vão apresentando nas Exposições Universais europeias no final do Oitocentos leva a prever uma evolução aceleradíssima da técnica, da cultura e das suas ligações nos anos seguintes. O que, naqueles anos, é uma opção de vanguarda, evolui, num curto período de meio século, para algo corrente e de uso ordinário. O limite entre visão e ficção parece esbater-se e as cidades são, numa tradução arquitectónica e urbana, objectos de estudo e experiência literária fundamentais (aptos a determinarem novas e surpreendentes narrativas). Autores como Jules Verne ou H. G. Wells procuram logo propor novas e futuras formas para cidades como Paris ou Londres face a todo este frenesim tecnológico que os rodeia. Contudo, a evolução tecnológica que se faz sentir na Europa entre 1850 e 1900 não tem o mesmo impacto em Portugal. As crises políticas, económicas e sociais que acontecem no país geram demasiados entraves para uma afirmação do progresso industrial através de hipóteses como a electricidade, a ferrovia, ou a construção em ferro e aço. Tanto no plano real como no ficcional, Lisboafica aquém das suas expectativas.

Ainda assim, há um texto essencial escrito em 1906 por um engenheiro, de seu nome José Melo de Matos, intitulado “Lisboa do ano 2000” e onde a cidade e os seus veículos surgem iluminados e movidos a energia eléctrica. Lisboa vê-se e prevê-se com outras características e, como consequência, nasce a narrativa urbana portuguesa de ficção científica. A cidade desenha-se de acordo com o ritmo frenético da electricidade e, com o tempo contabilizado ao segundo, aparecem outros apelos e vivacidades nocturnas.

As imagens que se apresentam vêm da vontade em explorar essa época a partir de uma hipótese retrofuturista. Com base num conjunto de projectos e planos que não chegaram a concretizar-se (nomeadamente, as hipóteses de travessia do rio e a união de docas marítimas), o trabalho que aqui se revela introduz um metropolitano sobre-elevado a ligar o Cais do Sodré a Santa Apolónia e um túnel sob o leito do rio Tejo a ligar as duas margens por ferrovia.

(Esta proposta teve origem numa investigação académica desenvolvida no âmbito do Projecto de Final de Curso do Mestrado Integrado em Arquitectura na Escola de Arquitectura da Universidade do Minho)  

João Rosmaninho (n. 1979) é licenciado em Arquitectura (2002) e mestre em Ciências da Comunicação (2009). Desde 2011, desenvolve uma investigação de doutoramento sobre as relações surpreendentes entre a Cidade e o Cinema. É docente na Escola de Arquitectura da Universidade do Minho (desde 2002) tendo, também, colaborado no seu Centro de Estudos (2009 e 2010). Foi investigador no projecto “Ruptura Silenciosa”, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (2012 e 2013), e Visiting Fellow, na Harvard University (2013).

Marta Machado (n. 1988) é formada em Arquitectura pela Universidade do Minho, onde concluiu o Mestrado na área de Cultura Arquitectónica. Desde há uns anos que se interessa pela ficção científica, tendo-se tornado essa a área de estudo eleita para o seu projecto de Mestrado. “Não há muito tempo, transpus o portal dos sonhos e visitei aquela região da Terra onde encontra a célebre Cidade da Destruição” (Nathaniel Hawthorne).

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