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Electronic Labyrinth: a Ficção Científica na TV #1

A ficção científica na TV: conheça melhor as origens do Super-Homem e a evolução da sua identidade na TV e cinema

ADVENTURES OF SUPERMAN – Episode 1: Superman on Earth (1951)

Argumento: Richard Fielding; Realização: Tommy Carr

O Super-Homem é uma figura tão familiar de uma tão grande fatia da população terrestre, que por vezes tendemos a esquecer a fluidez da personagem ao longo do tempo. Apresentado ao público no já lendário primeiro número da revista Action Comics, em Junho de 1938 – há precisamente 75 anos – a criação de Jerry Siegel e Joe Shuster rapidamente assumiu o estatuto simbólico de um mito moderno. E, como é característica de todos os mitos desde o começo dos tempos, possui a capacidade de evoluir e se adaptar às circunstâncias de cada época, de cada geração, assim renovando a sua carga simbólica. Por vezes, o seu tremendo sucesso e popularidade, um pouco por todo o mundo, é causa de alguma confusão, sobretudo entre aqueles que, com alguma razão, lhe procuram atribuir uma dimensão crística que, no entanto, empobrece necessariamente a força da personagem. No processo de transcendentalização do símbolo, é inevitável que este se transforme numa abstração, e as abstrações, como qualquer escritor sabe, são a kryptonite da tensão dramática.

Parece-me, por isso, bastante mais útil recordar que, pese embora a ambição (que não se encontrava no trabalho original de Siegel e Schuster, bastante mais paroquial do que posteriores desenvolvimentos por mãos diversas) de transformar o Super-Homem num mito de relevância Universal, este é essencialmente um símbolo dos Estados Unidos da América, suficientemente fixo para servir de pedra-de-toque moral idealizada, e adequadamente flexível para reflectir a evolução da própria sociedade americana (e, por reflexo, global). Este contraste entre ambas as dimensões da personagem esteve sempre presente, desde as suas aventuras lutando na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados, até à sua primeira polémica intervenção num estado estrangeiro do Médio Oriente, suspeito de fomentar actos terroristas nos Estados Unidos (o fictício Qurac) por mãos de Marv Wolfman e Jerry Ordway nos anos oitenta, até à ainda mais polémica renúncia à nacionalidade americana, em 2011, na historieta “The Incident”, escrita por David S. Goyer e com arte de Miguel Sepulveda, na edição especial da Action Comics #900.

Superman como simbolo da América

Por outro lado, o facto de ser uma criação original do período de nascimento e consolidação dos comic books leva frequentemente a que nos esqueçamos do quanto a personagem tem ínsitos em si os elementos típicos (para não dizer arquetípicos) da Ficção Científica que preenchia as páginas das revistas pulp da sua era: um alienígena oriundo de outro planeta; um herói sobre-humano; e dupla identidade, assim se inserindo sem sobressaltos na corrente da cultura popular norte-americana que começava a ser moldada de forma indelével pelo crescente fascínio da tecnologia, da invenção e da Ciência(1), e dos seus reflexos sombrios, os cientistas loucos, as invasões extra-terrestres e a destruição/perversão da sociedade humana (leia-se, norte-americana).

Todos estes elementos jogam um papel fulcral ao longo da longa vida da personagem, mas aquele que certamente cumpre uma funcionalidade estruturante, e é responsável pela consistência da sua dimensão simbólica é, sem dúvida, a dupla identidade Clark Kent/Superman. A dupla identidade, ou melhor dizendo, a identidade secreta, não nasceu com os super-heróis dos quais é tão característica, nem nas pulps onde era predominante entre os vigilantes mascarados que os precederam. Nem tão pouco serviu sempre os mesmos fins. Ulisses e Harum-al-Rashid, entre outros, recorreram também a identidades falsas para se imiscuírem incógnitos entre os meros figurantes da vida normal de cada dia. Há no entanto duas particularidades na identidade secreta do Super-Homem que o distingue dos demais super-heróis como Batman (Bruce Wayne) ou o Homem-Aranha (Peter Parker). Ao contrário dos exemplos citados (típicos da esmagadora maioria), a identidade secreta não surgiu apenas com a manifestação dos super-poderes, ou com a determinação em corrigir pessoalmente os males da sociedade ou em vingar feitos anteriores, mas acompanhou a personagem desde o primeiro momento. Na versão original, Kal-El, ainda bebé e órfão dos pais naturais Jor-L e Lora (todos estes elementos foram evoluindo ao longo do tempo, de formas que não importa aqui precisar), é acolhido num orfanato, onde, desconhecidos os seus poderes, lhe é atribuída a identidade de Clark Kent. Mais tarde, com a publicação do primeiro número da revista Superman em 1940, são introduzidos os Kent, que encontram o foguete em que o Super-Homem foi enviado à Terra e resolvem adoptar a criança, a quem chamam Clark, criando-a como se fosse filho natural de ambos.

É esta dicotomia entre as identidades da personagem que lhe confere uma inusitada ressonância mítica e ajuda a sustentar a leitura crística que dele por vezes é feita (sobretudo por aqueles que atribuem especial relevo ao facto de que a primeira Sra. Kent, em 1940, se chamou Mary, antes de passar por Sarah na novela de 1942 de George Lowther, até se fixar na mais familiar e predominante Martha). E foi essa mesma dicotomia que conferiu inesperada riqueza à versão da personagem apresentada por John Byrne na mini-série Superman: The Man of Steel (1986), que influenciou fortemente a evolução futura da personagem. Nessa nova visão do Super-Homem, a identidade de Clark Kent adquire uma função estruturante sobre a personalidade do super-herói, assumindo-se como a verdadeira identidade. A revelação de que ele é na verdade um sobrevivente da destruição de Krypton é encarada pelo Super-Homem como uma perda da sua identidade, uma perda da sua humanidade. Na verdade, a tensão é subtil, mas sempre presente, manifestando-se por vezes em inesperadas falas do personagem, que se refere a Clark Kent como “my true identity”, no primeiro número do segundo volume da revista Superman (Janeiro de1987), e como “my civilian identity” no número oito da mesma publicação (Agosto de 1987).

É também esta dinâmica entre as duas identidades que realça a segunda particularidade da mesma: o facto de que o Super-Homem não precisa de uma identidade secreta. Nos primórdios da série, a identidade secreta parece ser imposta quase como uma necessidade do género, como algo de habitual nesse tipo de narrativa: em suma, um cliché. Prova disso o facto de que a sua justificação inicial era a possibilidade de o Super-Homem, trabalhando como jornalista, ter conhecimento imediato e poder acorrer rapidamente a qualquer emergência (por que não polícia, ou bombeiro, é algo que nunca é explicado, mas que pode ser compreendido por mera idealização do papel dos jornalistas como intelectuais, perfilhada por Siegel e Schuster). No entanto, não é preciso vasculhar muito na memória das pulp para encontrar um exemplo do que digo: Doc Savage, um dos mais populares personagens de todos os tempos, apodado The Man of Bronze, antes de o Super-Homem ser o Homem de Aço, e claramente uma das fontes de inspiração de Siegel e Schuster, juntamente com o John Carter de Edgar Rice Burroughs e o Popeye dos filmes animados dos estúdios Max Fleischer (que deixariam uma marca indelével na história das adaptações de Superman), também não necessitava de uma identidade secreta, embora não fosse raro recorrer a vários disfarces.

O que o distinguia dos outros vigilantes mascarados era o facto de possuir uma força e uma inteligência sobre-humanas (bem como uma inesgotável fortuna), que tornavam totalmente desnecessário proteger a sua real identidade de Clark Savage (o nome é também significativo). Se faço este breve detour, é apenas para retomar o fio inicial, observando que, tal como Doc Savage, o Super-Homem não carecia de ocultar a sua identidade. Poder-se-ia dizer que, se o faz, é apenas para se “sentir” mais humano, mais parte do melting pot de culturas que conforma os Estados Unidos, mas creio que seria mais válido concluir que o faz para poupar ao homem comum a presença constante de um ser superior, de um anjo da guarda, cuja omnipresença poderia ser verdadeiramente castrante (um tema explorado por Elliot S! Maggin em ‘Must There Be a Superman?’, no nº247 da revista Superman, em Janeiro de 1972). Seja por que motivo for – e eles foram variando de criador para criador – a dupla identidade do Super-Homem sublinha um facto essencial, que é a humanização do alienígena: os super-poderes do Super-Homem são fruto da sua origem kryptoniana, mas o facto de os colocar ao serviço do Bem (por muito meloso que o cliché soe) e da Humanidade deve-se à educação nos simples valores americanos (ou, como nos informa o genérico da série de que aqui cuidamos: justice, freedom, and the American way) proporcionada pelos Kent. É isso que, na minha opinião, reveste de tanto significado a dualidade da personagem e o momento – sempre repetido em cada adaptação da personagem – em que o casal Kent, após resgatar o infante alienígena do foguete que o trouxe à Terra, espelha o prévio momento narrativo em que os pais naturais o abraçam uma última vez antes da destruição de Krypton.

A transformação decisiva, no seriado SUPERMAN (1948)…

… e na série ADVENTURES OF SUPERMAN (1951)

É no intervalo desses dois momentos que Kal-El passa a ser Clark Kent, o alienígena passa a ser humano, e as duas culturas (a cultura altamente científica e aristocrática de Krypton, e a simples cultura grassroots do Mid-West americano) se unem num símbolo prenhe de significado.

Superman é um habitante do universo dos comics, onde a sua evolução tem sido mais rica e variável, e onde esta dualidade tem sido explorada de forma quase exaustiva. Os leitores habituais dos vários títulos que registam a evolução do Super-Homem conseguem identificar claramente quais os períodos que mais os marcaram e que correspondem, gosso modo, à concreta interpretação do Super-Homem que têm por ‘verdadeira’, seja pela influência dos sucessivos editores como Mort Weisinger, Julius Schwartz, Jenette Kahn ou Eddie Berganza, seja pela influência dos respectivos autores e ilustradores, desde Siegel e Schuster, passando por Dan Schwarz, Carmine Infantino, John Byrne, Geoff Johns, Alan Moore até à mais recente encarnação por Grant Morrison nos New 52. No que toca ao audiovisual, porém, onde a personagem chega a um público muito mais amplo e abrangente, alheio à intrincada evolução da personagem ao longo destes 75 anos, a situação é distinta e apresenta dois picos de identificação que podemos considerar verdadeiramente geracionais.

Para todos aqueles nascidos a partir de 1970, o único Super-Homem que regista, e contra o qual são medidos todos os outros, é o SUPERMAN (1978) de Richard Donner, que podemos considerar verdadeiramente definitivo. No díptico que forma com SUPERMAN II (1980), cujas cenas de acção foram dirigidas por Richard Lester, a quem foi atribuído o crédito da realização, Donner apresenta-nos uma interpretação do Super-Homem, encarnado na escolha inspirada do actor Christopher Reeve, que realmente faz jus ao potencial da personagem, e cristaliza a visão dela que venho expondo. Donner adopta as cores vivas do pulp, compreendendo como poucos que Superman é um herói luminoso, e resistindo à tentação, mesmo nos momentos mais sombrios, de se deixar arrastar para um visual mais negro, como o que Burton e Nolan desenharam mais tarde – de forma adequada e brilhante – para os seus respectivos BATMAN. Uma lição que Bryan Singer não integrou no seu falhado SUPERMAN RETURNS (2006) tentando inserir o Super-Homem num universo de “realismo quotidiano” semelhante ao que inaugurara no seu díptico dos X-MEN (2000-2003). Batman é uma criatura da noite, tal como Superman é uma criatura do sol (literalmente, pois é ao sol que vai buscar os seus poderes), e é esse contraste que gera uma oposição que se pode considerar verdadeiramente dialéctica entre ambos, uma oposição brilhantemente explorada na série de comics Superman/Batman (2003-2011), particularmente nos números escritos por Jeph Loeb.

Tal como Loeb, Donner percebeu que, por muito lamechas que possa parecer, uma das características essenciais do Super-Homem é a sua inata bondade. O mesmo é dizer que apesar de para todos os efeitos, o Super-Homem ser praticamente omnipotente, ainda assim não se deixa corromper pelo poder que detém. Mesmo numa época naturalmente mais cínica e, como tal, mais exigente em termos de suspensão da descrença, o Super-Homem continua a ser uma personagem sem grandes dúvidas morais, o que confere grande intensidade dramática à sua experiência da vida de um humano comum ao perder os seus poderes em SUPERMAN II . De certa forma, é como se nunca tivesse perdido a inocência ao sair do Éden – ou, mais correctamente, do idealizado Kansas rural.

Ao criar essa visão edénica do Kansas rural, saído das ilustrações de Norman Rockwell ou Andrew Wyeth, Donner atribui um papel decisivo à infância e adolescência de Clark Kent, sublinhando a sua influência na humanização do homem de aço, e sublinhando o quão terra-a-terra (o quão americano) é a figura crística que muitos vêm nele(2). Foi de tal forma inspirada a realização deste segmento do filme, que nele encontramos as raízes da bem-sucedida série SMALLVILLE (2002-2011), que estende aqueles vinte minutos de filme até às dez temporadas. Ao dar vida de forma tão fiel a um símbolo tão poderoso, os filmes da era Donner transcendem in essentia as incongruências do argumento ou os elementos mais difíceis de engolir, como o final do primeiro filme que, em qualquer outra adaptação, seria necessariamente considerado de uma infantilidade absurda. Uma prova inelutável de que Donner não deixou que o filme fosse dominado pelos (magníficos) efeitos especiais, centrando a narrativa, de dimensões épicas, na relação entre as personagens.

Mas para aqueles que cresceram antes de Christopher Reeve envergar a capa do Super-Homem, o ícone era outro, e igualmente duradouro, pese embora nunca tenha desfrutado dos meios técnicos ou financeiros que tornaram SUPERMAN um filme superlativo.

Quando George Reeves se estreou como um dos mais populares Super-Homens de todos os tempos, interpretando a personagem em 104 episódios da série Adventures of Superman, a personagem tinha já aparecido em dois seriados de 15 episódios cada, SUPERMAN (1948) e ATOM MAN VS SUPERMAN (1950), onde fora interpretado por Kirk Alyn. No entanto, a era dourada dos seriados estava nos estertores finais, suplantada pelos novos formatos introduzidos pela televisão e pelas alterações do mercado cinematográfico do pós-guerra. Foi por isso para a televisão que os decisores da DC Comics se voltaram, apostando na criação de um episódio piloto, com a duração habitual de um filme série-B (cerca de uma hora) passível de ser distribuído em salas de cinema. O filme, escrito por Robert Maxwell, que desde 1939 era o responsável pela comercialização da personagem, sob o pseudónimo Richard Fielding, e realizado por Lee Sholem estreou em 1951 com o título SUPERMAN AND THE MOLE MEN, sendo posteriormente integrado na série como o episódio em duas partes “The Unknown People”. Por critérios actuais, o filme é tosco e mal-amanhado, a mensagem simplista, e a ideia pouco acima do nível pulpesco que caracterizava o seriado típico de matinée. A agravar o problema, os efeitos especiais eram pobres, recorrendo ao mesmo método que o reputado forreta Sam Katzman utilizara nos seriados que produzira, ou seja a introdução de um tosco desenho animado para substituir o actor nas cenas em que o Super-Homem tem que voar. O que salvava o filme, sem dúvida, era o actor que dava vida ao Super-Homem, e sobretudo a Clark Kent. George Reeves não tinha a elegância de Kirk Alyn (que fora bailarino), mas tal como Reeve três décadas depois era alguém talhado para encarnar a personagem, tendo definido a forma como esta seria vista e imaginada por uma geração.

A série, sem encontrar um patrocinador, apenas começou a ser transmitida em 1953, quase dois anos depois de a primeira temporada de 26 episódios ter sido produzida, e a sua estreia, finalmente patrocinada pelos cereais Kellogs, deu-se com o episódio “Superman on Earth”, igualmente escrito por ‘Richard Fielding’ e realizado por Thomas (Tommy) Carr, que realizara já o seriado de 1948. Carr seria um dos nomes habituais ao longo de toda a série. Apropriadamente, o primeiro episódio conta a origem do Super-Homem, seguindo praticamente passo a passo (para não dizer plano a plano) o primeiro episódio do seriado de 1948, “Superman Comes to Earth” e, com uma duração de menos de 30 minutos, é de um poder de concisão exemplar, acompanhando Kal-El desde os últimos dias do planeta Krypton até à primeira reportagem de Clark Kent no Daily Planet, na qual baptiza o misterioso homem voador como Superman (em quase todas as posteriores versões da personagem, seria Lois Lane a ter as honras de baptismo).

Para os espectadores que se recordassem de ver o seriado no cinema, certamente terá sido interessante apreciar a evolução do Krypron de vestes clássicas, quase romanas de 1948, para a estética retrofuturista, invocadora daqueloutros serials, FLASH GORDON (1938-1940) e BUCK ROGERS (1939) da moderna versão de 1953. Mas certamente mais interessante, no seguimento do que venho dizendo, teria sido desfrutar do ambiente na quinta dos Kent, que aqui recebem um desenvolvimento que os leva bem além dos meros figurantes que tinham sido cinco anos antes. O desenvolvimento do próprio Clark Kent, desde a infância até à idade adulta, primeiro queixoso de que não se insere no grupo de amigos da escola por ser mais forte do que todos eles, depois confiante nas suas capacidades antes de partir para Metropolis, é telegrafado de forma eficaz e sempre através do reflexo do seu desenvolvimento no próprio casal, desfeito pela morte de Eben Kent (Tom Fadden) de ataque cardíaco, no vigésimo quinto aniversário do dia em que encontraram Clark no foguete que o trouxe de Krypton.

A realização não está isenta de falhas e opções de duvidosa eficácia: quando Clark finalmente chega a Metropolis, o choque provocado pela colossal metrópole e a sensação de desadequação do agora duplamente desenraizado Clark/Superman é transmitida pela voz off que acompanha a caminhada de Clark, que claramente não sai do mesmo sítio, por entre uma montagem em sobreposição de vários edifícios. No entanto, quando pousa a mala para colocar os óculos que o disfarçarão aos olhos dos meros mortais, o telespectador fica realmente convencido de que um par de óculos e um chapéu são realmente bastantes para que o Homem de Aço não seja reconhecido.

No entanto, apesar de neste primeiro episódio o Super-Homem ter uma estreia modesta, limitando-se a salvar um operário dependurado de um blimp, Clark Kent conquista rapidamente e espectador na forma como em pouco menos de quatro minutos interrompe uma reunião de Perry White (John Hamilton) com Lois Lane e Jimmy Olsen (Jack Larson), após caminhar calmamente pelo parapeito exterior do vigésimo oitavo andar do edifício, logra que o editor se comprometa a contratá-lo se lhe trouxer uma exclusiva do incidente, bate Lois Lane na corrida e, quando esta lhe pergunta como conseguiu lá chegar primeiro que eles, responde com indisfarçável bonomia, “Maybe I am a superman, Miss Lane…

Perry White (John Hamilton) incumbe Jimmy Olsen (Jack Larson) e Lois Lane (Phyllis Coates) de uma reportagem, enquanto Clark Kent (George Reeves), recém-chegado de Smallville, espera uma oportunidade.

Phyllis Coates, que retoma o papel que desempenhara em SUPERMAN AND THE MOLE MEN, substituindo Noel Neill (que por sua vez a viria a substituir a partir da segunda temporada da série) compõe uma Lois Lane inteligente, inquisitiva e competitiva, um claro protótipo da interpretação praticamente definitiva de Margot Kidder nos filmes de Donner/Lester. Apenas Teri Hatcher terá sido mais popular do que Kidder no papel de Lois, na série de culto LOIS & CLARK: THE NEW ADVENTURES OF SUPERMAN (1993-1997). Coates e Reeves funcionam perfeitamente em equipa, e Jack Larson, no papel de Jimmy Olsen, obteria um inesperado sucesso (talvez já previsível se atentarmos que o segundo episódio da série, ‘The Haunted Lighthouse’ é praticamente uma aventura de Jimmy Olsen), influenciando de forma determinante o rumo da personagem nos próprios comics, onde viria a receber um título próprio (Superman’s Pal, Jimmy Olsen).

Superman on Earth’ é o primeiro episódio das aventuras de um super-herói indestrutível que George Reeves soube tornar surpreendentemente humano. A personagem sobreviveu ao actor, que viria a morrer em circunstâncias não totalmente explicadas (oficialmente, suicídio), mas o actor transcendeu momentaneamente a personagem, de uma forma que apenas Reeve logrou igualar três décadas mais tarde. Os títulos de jornal que anunciaram a sua morte estavam revestidos de involuntária ironia ao proclamarem ‘TV’s Superman Kills Self”. Sessenta anos depois da estreia da série, George Reeves continua a viver na pele do Super-Homem, como avatar momentâneo de um mito moderno e, enquanto tal, é parte integrante de todos nós.

(1) Confesso que eu próprio tive que ser recordado do facto por Phil Hardy, na sua sempre relevante The Aurum Film Encyclopedia: Science Fiction.

(2) Curiosamente, no terceiro número da recente mini-série Flashpoint (Setembro de 2011, argumento de Geoff Johns e arte de Andy Kubert), cuja trama decorre numa realidade alternativa ao normalmente denominado DCU, Barry Allen, o Flash, tranquiliza um desconfiado Batman/Thomas Wayne, quanto à natureza do herói de Krypton, que nessa realidade alternativa de encontra confinado desde o nascimento numa cela sob a luz de um sol vermelho: “And I can say with all confidence that no matter where he was raised, he’s a good person (ênfase no original), o que manifestamente vai contra a tese que venho propondo. No entanto, não me parece despropositado encarar este desvio como uma cedência à facilitação narrativa, pois no contexto Allen sempre conheceu um Super-Homem de coração puro.

Bibliografia Sumária:

BYRNE, John & GIORDANO, Dick – Superman: The Man of Steel, nº01-06, DC Comics, New York, 1986

BYRNE, John – Heart of Stone”, in Superman – Vol.2, nº01, DC Comics, New York, 1986

BYRNE, John – Future Shock”, in Superman – Vol.2, nº08, DC Comics, New York, 1987

DANIELS, Les – Superman: The Complete History, Chronicle Books, San Francisco, 1998

DELELÉE, Cedric – DC Lache ses Supermen”, in Mad Movies Hors-Serie #21: Le Guide Complet des Super-Heros au Cinema, Juillet 2013, p.24-31

FULTON, Roger – The Encyclopedia of TV Science Fiction, Boxtree Limited, London, 1997

GOLDIN, James Grant & SMITH, Steven (argumento) & BURNS, Kevin (realizador) – Look, Up in the Sky! The Amazing Story of Superman, Warner Home Video, DVD-R2, 2006

HARDY, Phill – The Aurum Film Encyclopedia: Science Fiction, 1995

JOHNS, Geoff & KUBERT, Andy – Flashpoint, nº03, DC Comics, New York, 2011

TOULLEC, Marc – Baptemes de l’Air”, in Mad Movies Hors-Serie #21: Le Guide Complet des Super-Heros au Cinema, Juillet 2013, p.11-15

TOULLEC, Marc – Les Super-Heros au Salon”, in Mad Movies Hors-Serie #21: Le Guide Complet des Super-Heros au Cinema, Juillet 2013, p.16-21

TYLEY, Jodie – Sci-Fi Icon: Superman”, in SciFi Now, nº58, 2011, p.110-11

[author] [author_image timthumb=’on’]http://revistabang.com/files/2013/09/joao_seixas.jpg[/author_image] [author_info]João Seixas, autor e crítico literário, é uma das vozes mais activas na defesa da Ficção Científica em Portugal. Para além do exercício da advocacia, escreve frequentemente sobre Ficção Científica e Fantástico, tendo publicado artigos e ensaios nas revistas Ler, Bang!, Paradoxo, Megalon, no Jornal Público e em diversos sites. Entre 2004 e 2012, data em que cessou a sua publicação, todos os meses assinou a crítica de livros na área da FC&F na revista OS MEUS LIVROS, uma das duas principais publicações literárias em Portugal. Desde 2006 tem participado com contos nas principais antologias portuguesas de Ficção Científica. Além de ter assinado a tradução de várias obras de Ficção Científica e Fantasia, incluindo Edgar Rice Burroughs, Dan Simmons e Neil Gaiman, editou a antologia COM A CABEÇA NA LUA (Saída de Emergência, 2009), comemorativa dos quarenta anos da alunagem, e foi o responsável pela edição portuguesa do já clássico de culto The Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric & Discredited Diseases, de Jeff VanderMeer e Mark Roberts (Saída de Emergência, 2010). Em 2005 fundou, com Pedro Marques, a editora LIVROS DE AREIA.[/author_info] [/author]

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